abril 10, 2008

We never get to dance, we just seem to stare. *

O tempo vai mudar, eu sei. Denuncia-o o vento que me revolve os cabelos quando fecho a porta do carro e o fumo que as chaminés derramam sobre as ruas do meu bairro. Sei-o quando estou parada, a porta aberta só para ver chover como se fosse a primeira vez, como se não adivinhasse este dilúvio já. Quando te disse que gostava de ouvir esta música muito alto, era apenas isso que queria dizer: que a queria ouvir até que ela me cobrisse, até que não houvesse mais nada. Conversamos tanto sobre tão pouco que às vezes duvido da minha capacidade de abstracção. Falamos, usamos palavras gastas, moldamos-lhe o significado, tentamos alterar-lhes o sentido até que elas possam dizer exactamente o que queremos mas nunca conseguimos, ficamos sempre quase lá.

E tu, quando tu me pedes silenciosamente para ficar, sabes que gostaria de ficar. Desenterras a ferida mestra com que me marquei um dia e sabes exactamente quando e como me vou magoar. Não faz mal, penso eu. Não importa que saibas ler-me para além de todo o ruído com que normalmente me cerco. Eu quero ser triste contigo porque tu sabes como dói. E quando a minha dor passa a ser a nossa dor, a tristeza amansa e somos menos tristes, as duas. Sentada neste banco alto, espero apenas o momento em que me desarmas para soltar o dilúvio. De palavras, de sal. E se me ofereces mais um copo, é porque sabes como a dor desiste de mim quando a euforia me controla o corpo. Só quero que me doa até chegar aqui. Até ao momento em que abrimos a porta e há um rio castanho a lamber a soleira. Antes disso e depois disso, eu sou apenas mais uma.

* de alguém de quem gosto muito.

2 comentários:

K. disse...

Escreves palavras bonitas...

M. disse...

Obrigada...

(não há aqui daqueles smileys envergonhados mas a reacção foi a mesma)