janeiro 19, 2018

Augusto, um ano (cheio) de vida

Há um ano atrás, perto da uma e tal da manhã, senti qualquer coisa que não devia estar a acontecer mas estava: as águas tinham rebentado. Ainda faltavam cinco semanas para a data prevista para o nascimento daquele bebé, não era possível que ele estivesse a querer ver o Mundo já. Num pânico controlado, liguei para a unidade de ginecologia e perguntei o que devia fazer naquele caso. Venha com calma para o hospital, disseram-me do outro lado da linha, mas venha. A mala ainda estava meio por fazer, enfiei meia dúzia de coisas de que precisava lá dentro. Acordámos os miúdos, que dormiam tranquilamente, enfiámos-lhes os casacos e gorros e botas e lá fomos os quatro para o hospital.

Fazia muito frio, nessa noite, como aliás nos dias que se seguiram. O M. ligou, sem querer, as luzes de nevoeiro porque não estávamos com o nosso carro, tínhamos um emprestado da oficina. Quando estamos mesmo a entrar na auto-estrada, um carro da polícia a fazer-nos sinais e eu já a pensar naquelas situações nos filmes em que a senhora grávida já vai aos gritos dentro do carro. Eu não gritava e eles queriam apenas alertar para o facto de não haver nevoeiro... Luzes apagadas, voámos até ao hospital.

Fui vista pela parteira de serviço, que ligou à minha médica para a avisar. Segundo ela, podiam passar semanas antes do trabalho de parto começar, por isso era melhor que eu me dispusesse a aguardar calmamente... mas no hospital. Levaram-me para um quarto às escuras, onde já dormia uma grávida de risco, tentando evitar o seu parto há já algumas semanas. Fazia muito frio porque estava uma janela aberta. Eu estava doente, devia ter uma laringite ou qualquer coisa do género e tremia debaixo dos lençóis. As contracções tinham começado e eu, moderna que sou, descarreguei à pressa uma aplicação para perceber a sua frequência e intensidade. Pelas minhas contas, o parto não devia estar longe. Pelas contas da enfermeira da manhã, não havia sinais de trabalho de parto no monitor fetal. Mas ela via como me contorcia com dor e, para não arriscar um nascimento ali no quarto, mandou-me para o bloco de partos. Passaram duas horas, um animal dum anestesista e muitas palavras de encorajamento de parteiras e médica - eu tinha mais um bebé, sozinha, sem o abraço do pai. Eu gritava O que é, o que é? e só depois de alguns segundos me disseram que era um rapaz e eu soube que tinha nascido o Augusto.

O resto já se sabe. Nascido com 35 semanas e 3 dias, o Augusto precisou de ir para a Neonatologia, embora tudo indicasse que era saudável. Passaram-nos brevemente pelos meus braços para que o beijasse antes de entrar na incubadora e eu senti-me mais sozinha que nunca. Parir um bebé e depois não ter bebé nenhum ao meu lado abriu um fosso no meu peito que só foi alargando com todas as horas que passei sem o ver no primeiro dia. Acho que o curei quando pude passar duas horas inteiras pele com pele, no escuro da Neonatologia. Deitados os dois, só a estarmos, a aprendermos a ser mãe e filho, o meu instinto de protecção a gritar milhões.

Fast forward para hoje. O Augusto comemora o seu primeiro ano, que, como sempre, passou incrivelmente depressa! Dos nossos três filhos, é talvez o mais bem disposto e bonacheirão. Como os outros, precisa de muito colo, muitos beijinhos, muitos abraços. Dá-se bem com toda a gente menos com o seu pediatra, apesar da sua gentileza e empatia. Como os irmãos, faz um ano e só dormiu duas vezes a noite toda. Se não pararem de lhe dar de comer, ele não pára de comer. Mexe em tudo o que está ao alcance dele (só na semanas passada conseguiu partir duas garrafas de vinho, mea culpa...), sabe o que é dançar, bater palmas e dizer xau. É o nosso último bebé e por isso custa mais sentir que o tempo avança sem piedade. Vou aproveitar muito que ainda o posso esborrachar com beijos!

janeiro 03, 2018

Olha, já estamos em 2018!

Quase um mês. Quase um mês sem ter tempo ou (muitas vezes) paciência para escrever uma linha que fosse. Quase trinta dias a ter rascunhos de posts na cabeça, a imaginar inícios e títulos, a pensar se fazia sentido escrever sobre isto ou aquilo e depois nunca me sentar para o fazer. É duro ser mãe de três, é verdade, mas o que é verdadeiramente duro é dormir (muito mal). Com a rotina (banhos, pijama, jantar, acordar, roupa, escola/creche) dou-me eu bem. O que não suporto é a falta de sono. E eis que, quase chegados ao primeiro ano completo do senhor Augusto, ainda não se dorme a noite toda nesta casa. Não vou descrever outra vez o suplício, embora agora sinta que a exaustão aumentou mesmo exponencialmente.

O mês de Dezembro não vai deixar saudades. Primeiro foram os rapazes com gastroenterite, coisa leve mas ainda assim de estar vigilante. Depois foi a pequena que com tanta, tanta tosse acabou por ficar internada na clínica pediátrica durante quatro dias para poder receber o oxigénio que tanto lhe faltava. Depois fui eu a cair com a gastro, enquanto tomava conta dela no hospital. Ela teve finalmente alta, eu melhorei e eis que as -ites voltam a atacar: eu com um ataque monstruoso de sinusite, ela com duas otites mesmo acabada de sair do hospital. Frequentei mais as urgências da clínica pediátrica e alguns médicos do que alguma vez imaginei possível. Não foi nada de grave, é claro, mas a sucessão de doenças e o facto de eu ter adoecido ao mesmo tempo que eles acabou com as minhas forças. Cheguei mesmo a chorar de desespero quando os deixei na creche um dia por alguns minutos: ela cheia de dor de ouvidos, o pequeno com alguma tosse mas eu a precisar que um médico me visse e me medicasse. Quando pensarem que a vida de emigrante é muito linda, pensem também como seria se não tivessem ninguém para vos ajudar - nenhuma família, poucos amigos, ninguém para ficar com os miúdos enquanto vocês mesmo tratam da vossa saúde. Foi a pior semana dos últimos tempos e rezo para que esta combinação de doenças nunca mais volte a acontecer.

Ainda conseguimos ir a Portugal. Foi a primeira vez que fomos de carro nesta altura do ano e, meteorologicamente falando, não foi horrível. Para lá, o primeiro dia (atravessar França de uma ponta à outra) é extremamente difícil para mim mas mais leves para os miúdos; o segundo dia passa num instante para mim e numa eternidade para eles, que estão realmente fartos de estarem presos no carro. No regresso, atravessamos Espanha sem grandes queixas e chegamos a Bordéus com alguma tranquilidade; o segundo dia é o pior, pela extensão do caminho e o humor dos três pestinhas. Nada que não se faça e felizmente as más memórias apagam-se depressa, é engraçada esta nossa capacidade. Um pouco com a memória do parto: agora estás a maldizer a hora em que resolveste engravidar, nos minutos a seguir só já pensas naquele pequenino ser que ajudaste a vir ao mundo e nada mais importa. Chegados lá, a melhor prenda que Natal que pudemos ter foi tempo para respirar, oferta da nossa família, claro. Ao ficarem com os miúdos sempre que possível, ajudaram-nos a esquecer a semana interminável que tínhamos acabado de passar (esta não foi tão rápida de esquecer, infelizmente). Viemos carregados de presentes para os miúdos, de Sol e temperaturas invernais agradáveis, a respirar melhor mas também com aquele bichinho de poder voltar à nossa casa. A um quilómetro da fronteira com o Luxemburgo, um nevão a parar o trânsito porque estas pessoas nunca conduziram na neve e não sabem como se comportar...

E finalmente terminou 2017. Eu cá não dei por nada porque, costume desde que a Amália nasceu, estava a dormir. Quer dizer, acabei por saber quando tinha chegado a meia-noite graças aos inúmeros foguetes e outros espectáculos pirotécnicos que se faziam ouvir um pouco por todo o lado. Mas o sono era tanto que não fiz questão de estar acordada e, já que não tínhamos planos com mais ninguém, jantámos todos juntos (depois de um dia dos demónios fechados em casa), eu e o marido bebemos uma garrafinha de Esporão e depois acabou 2017 para mim. Já perdi a fé nas resoluções de Ano Novo mas há uma coisa que gostava mesmo que mudasse neste novo ano: gostava de ter mais paciência para os miúdos. Gostava de os entender melhor e, sobretudo, de vê-los como as outras pessoas os vêem: curiosos, livres, divertidos, inteligentes. Passam-se noites em que penso no que é que estou a fazer mal e sei reconhecer que muitas vezes estamos demasiado cansados para prestar toda a atenção necessária a cada um deles. Eu sinto que estamos a tentar fazer o melhor mas também que a coisa estoura muitas vezes por dá cá aquela palha. Tenho esperança de poder dormir mais este ano e, descansando um pouco mais, espero poder não me irritar por tudo e por nada. Não prometo mas gostava de chegar aqui no final do ano e riscar o meu únido desejo para este ano. Acrescento apenas mais um, de que me lembrei agora mesmo: gostava de aprender a tricotar mas as minhas tentativas até agora dizem-me que talvez tenha que ficar para uma próxima encarnação!

De resto, desejo a todos que ainda lêem este (muitas vezes moribundo) blog um Feliz Ano Novo! Espero que vos traga aprendizagem, tempo, paz de espírito e muito amor. E, já agora, algum dinheiro, que uma viagem ou dois ou três livros não se compram sozinhos!

dezembro 06, 2017

“A single person is missing for you, and the whole world is empty.”

Há dois dias acabei de ler o livro mais triste de que me lembro. Chama-se The Year of Magical Thinking (O Ano do Pensamento Mágico em Português), escrito pela jornalista e escritora Joan Didion. Quando peguei no livro, não sabia muito bem ao que ia. Já o tinha visto recomendado por algumas pessoas com quem partilho os gostos literários mas não estava preparada para o enorme murro no estômago que foram estas duzentas e poucas páginas de não-ficção.

O livro centra-se no ano que se seguiu à morte do marido de Didion, John Dunne, e em que a sua filha estava também internada em coma após uma pneumonia e um choque séptico. É o retrato de uma mulher sozinha, apenas acompanhada pelas muitas memórias de quarenta anos de vida em comum, dividida entre fazer o luto pelo marido e acompanhar a filha no hospital. É um relato brutal da dor mas principalmente das maneiras como ela tenta enganar-se a si mesma com o tal pensamento mágico: se ela fizesse muita força, se ela, por exemplo, guardasse os sapatos do marido, talvez ele não estivesse realmente morto e ainda pudesse voltar. Didion tenta evitar todos os sítios onde criaram memórias os dois (ou os três) mas descobre que até as mais pequenas coisas têm o poder de despertar memórias sobre as conversas, as discussões, as promessas, os planos que tinham feito, quase sempre trabalhando lado a lado. E depois há o facto da filha estar em coma aquando da morte do pai (acabou, tragicamemente, por morrer também em 2005) e de isso ter, de certa maneira, adiado o luto, tão necessário, quanto inevitável.

Não sou muito boa a lidar com a morte. Ninguém é, dirão vocês e com razão. Muitas vezes penso nela - não na minha mas na dos que me são próximos - e choro antes de dormir. Noutras vezes, não consigo compreender como pode a vida ser só isso, umas dezenas de anos sobre a Terra, uma passagem breve e totalmente desprovida de sentido. Há noites em que percebo que o Mundo como o conhecia está a desmoronar-se lentamente e que vamos ver mais e mais pessoas de quem gostamos ou com quem tivemos algum tipo de relação a ir também, sucumbindo à implacável passagem do tempo. Noutras ocasiões, penso na tristeza de (um dia) deixar de ver os meus filhos e imagino a tristeza que isso também lhes trará e isso dói. Sinceramente, nada faz sentido porque não acredito na vida depois da morte. Então vir ao Mundo, crescer, aprender, trabalhar, amar - é tudo um desperdício de matéria.

Mas devo dizer a verdade: na maior parte do tempo não penso na Morte. Na maior parte do tempo, é como se fôssemos todos imortais e não me consigo aceitar a ideia de que o nosso destino é todo o mesmo. Na maior parte do tempo, não penso em agências funerárias, em atestados e certidões, em termos médicos incompreensíveis, em coroas de flores e velórios, no vazio que são aqueles primeiros dias após. Na maior parte do tempo, tento convencer-me que tudo aceitarei, que nada me magoará, que serei capaz de tudo sem chorar. Não vou ser capaz, eu sei. Todos morremos, não precisam lembrar-me. É  a conclusão esperada desde sempre, claro que sim. A vida continua, com um bocado de sorte. Mas nada me preenche esta sensação de vazio, de escuridão e de inutilidade quando penso nos porquês.

(às vezes há períodos assim, cheios de Morte. Para mim, foram as noites a ler o livro. Depois morreram o João Ricardo, o Pedro Rolo Duarte, o Belmiro de Azevedo e o Zé Pedro. Há pessoas a morrerem em ataques terroristas no Egipto e no Iemen. Há colegas de trabalho que morrem ou a quem morre alguém. E no meio disto tudo, num rasgo de puro egoísmo, eu penso: quando é que me vai tocar a mim?)

novembro 13, 2017

#metoo

Este é um post que queria não escrever mas não posso ficar indiferente àquilo que se tem passado nos últimos tempos. Refiro-me, claro, às acusações de assédio sexual, violência ou puro comportamento misógino de muitas figuras públicas que têm vindo a público depois de muitas mulheres ganharem a coragem de (finalmente) falar.

Para mim, a questão fundamental é que este tipo de comportamento não se verifica apenas em posições de poder: está, literalmente, por todo o lado e às vezes vem mesmo de pessoas que estimamos e que julgamos imunes. Não me choca mais saber que o Harvey Weinstein, por exemplo, usou o seu poder para abusar de mulheres à procura de um lugar na indústria cinematográfica do que me choca saber que as mulheres estão sujeitas a este tipo de abuso todos os dias, na rua, nos seus locais de trabalho, nos sítios onde se vão divertir. Não me interessam apenas os nomes sonantes que se vêem agora envolvidos nestes escândalos, mas também os abusadores anónimos que provalmente nunca serão denunciados e, pior ainda, nunca compreenderão o efeito que têm sobre uma mulher.

Eu sofri na pele este comportamento misógino durante tantos anos da minha vida. Talvez até ganhar o poder sobre quem me pode magoar e deixar de prestar atenção a este tipo de abusos. Desde ser gozada por ter uma voz grave e, logo, pouco feminina; não encaixar nos padrões de beleza das miúdas de 12 ou 13 anos e ser gozada por isso; quase ser agredida por um rapaz numa festa (cheguei mesmo a ter a minha cabeça debaixo do braço dele e fui salva de um murro por um grande amigo, que infelizmente ganhou um olho negro) só porque não estava interessada nele e queria apenas dançar; terminar uma relação cheia de abusos e traições e nos dias seguintes ter o voicemail cheio de mensagens de ódio gravadas pelo ex-namorado, melhores amigos dele (incluindo uma mulher), confirmando a necessidade da minha decisão; apanhar um táxi para voltar a casa à noite e ter um taxista a perguntar-me repetidamente E se eu agora a levasse para um sítio escuro, sem ninguém ver?, como se isso fosse uma brincadeira; clientes que me perguntaram se não havia um homem para os atender porque não se sentiam confortáveis com o meu nível de experiência - muitos mais exemplos teria para dar, como creio que outras mulheres, anónimas e muitas vezes impotentes, devem também ter.

Em parte, sinto que cheguei a um ponto da minha vida em que este tipo de agressões (quase todas apenas verbais, felizmente) deixou de ter importância para mim e consigo simplesmente continuar a minha vida. A minha auto-estima deixou de se construir pela validação que buscava nos outros e passou a ser totalmente dependente apenas de mim. Aceito os meus defeitos e vivo especialmente bem com os defeitos físicos porque não são eles que me definem. Mas a verdade é que elas condicionaram a mulher que eu era e ainda continuam a ferir muitas mulheres por aí. Este tipo de comportamento não é exclusivo de um país, uma faixa etária, nível de escolaridade - está disseminado e, mesmo que muitas vezes abafado pelo silêncio das vítimas, bem vivo. E o único defeito desta movimentação toda, destes relatos (muitas vezes já antigos) é que vem tarde.

Mas ponhamos de parte tudo aquilo que se passou conosco e façamos a pergunta que se impõe de seguida: é este o Mundo que queremos deixar para os nossos filhos? Eu espero que a minha filha nunca tenha que passar pelo mesmo, que nunca veja a sua auto-estima destruída por um homem abusador, que saiba sempre de onde vem realmente o seu valor. E gostava que os meus filhos nunca fossem responsáveis por abusos deste tipo (de nenhum tipo, claro), que respeitem todos os seres humanos e lhes reconheçam o valor e apreciem as suas diferenças. É um legado muito difícil de atingir mas é o único pelo qual vale a pena lutar: fazer deste Mundo um sítio mais justo, com as mesmas oportunidades para todos, onde as diferenças se celebram e não servem os propósitos da discriminação, onde a simples biologia não constitui nenhuma fraqueza. É muito provável que eu não viva para ver estas mudanças mas que possamos, pelo menos, ajudar a desbravar caminho.

novembro 06, 2017

Trinta e oito viagens à volta do Sol

Depois de trinta e sete anos, continuo sem perceber muitas pessoas (os americanos, por exemplo), começo a perceber outras (a minha pequena filha, por exemplo, que se tem revelado numa pequena tirana em potência) mas conheço-me melhor. Não me importo de falar em público, empenho-me mil por cento em tudo o que faço, só fico contente quando sou a melhor.

2015
Cheguei aos trinta e seis com dois filhos e num estado de exaustão que me preocupa. Cheguei aqui e há dias em que eles são aquilo que me define: se os amei tudo o que pude, se lhes dei banho a correr, se consegui não gritar. Cheguei aqui e às vezes parece que eles são tudo o que interessa, mesmo quando me lembro que eu sou a minha própria pessoa, com desejos, falhas, neuras e vontades.

2013
Às vezes sinto que vivi muita, muita coisa e que aprendi outras tantas. Outras parece que cheguei agora ao Mundo e ainda estou no início da aprendizagem. No geral, o balanço entre as duas não me deixa arrependida de nada.

2012
E prometo tentar viver com menos ansiedade, aceitar os ensinamentos que os momentos mais vulgares nos trazem tantas vezes, ser menos colérica e impulsiva, duvidar menos do meu desempenho maternal, gastar menos e não me esquecer que o nosso filho é apenas uma criança.

2011
Fazer anos quando já se tem um filho é estranho: é como se me revisse neste pequeno gorducho que grita pela sala fora.

2010
O ano foi definitivamente de renovação: começou com uma imensa tristeza a oito de Janeiro, seguiu com uma notícia espantosa dia oito de Fevereiro, abanou-me no dia trinta e um de Julho e mudou a minha vida para sempre a vinte e nove de Setembro.

2009
Ainda sou uma chorona, na verdade. Choro por tudo e por nada, enervo-me a sério, comovo-me demasiado. Portanto, comprometi muitas horas de sono aos meus pais e esfrangalhei-lhes os nervos de vez em quando.

2008
São vinte e nove anos de alguma desorientação, certezas abaladas, vontade de arriscar e muitas descobertas. Que seja um ano para nunca mais esquecer.

[a escrever aqui há treze anos, hoje olho para trás e espreito o que escrevi sobre o meu aniversário desde que este blogue é gente. Descobri que nem sempre escrevi qualquer coisa, revi algumas fotografias minhas em bebé, viajei no tempo. E dou mais um passo gigante em direcção a esses monstros assustadores chamados quarenta (arrepio).]

outubro 27, 2017

VLOOKUPs e outras funções que tais

A minha saga profissional continua. Parece que quanto mais tempo trabalho, mais me vou afastando do que sonhava fazer.

Na minha inocência de criança, queria ser professora. De Inglês, de preferência, que era a minha grande paixão. Não admira: o Inglês está por todo o lado - filmes, televisão, música, livros, tudo coisas que eu sempre consumi avidamente. Não me lembro de querer ser outra coisa. No liceu, juntou-se-lhe o Alemão porque era assim o grupo de ensino, Inglês e Alemão, e porque eu tinha queda para as línguas. Mas quando começou a faculdade, tudo mudou. Durante um tempo ainda achei que ia fazer as cadeiras pedagógicas e passar pelo estágio mas dei um trambolhão metafórico que me fez perder o Norte e demorei nove anos a fazer o curso. Em algum momento, que não consigo isolar ou definir, deixei de querer ser professora e passei a sonhar com alguma coisa na área da cultura. A escrever, se pudesse ser.

Mas depois começaram as contas, as responsabilidades. Os meus pais levaram-me ao colo durante nove anos (mesmo depois daquele trambolhão), o que nunca lhes poderei agradecer de maneira satisfatória, mas tinha chegado a hora de me fazer à vida. Muitos dos meus colegas seguiram a via do ensino mas creio que muito poucos acabaram professores no sistema de ensino público. Outros seguiram tradução e safaram-se melhor. Muitos de nós terminámos a fazer simplesmente pela vida, um emprego que (se calhar) era para ser temporário e acabou a condicionar os anos que se seguiram.

Trabalhei em cinco ou seis sítios diferentes, na maior parte dos casos em posições ligadas ao apoio ao cliente, quer directo ou indirecto. Sempre que tive tempo, comecei pela posição mais básica e fui trepando pela cadeia hierárquica a pulso, mesmo quando não sabia criar um relatório ou fazer uma apresentação em público. Cheguei à empresa em que trabalho agora e fui apanhadas em sucessivas cambalhotas: primeiro, um conhecimento técnico que não tinha e fui obrigada a obter à força; depois, passar para uma área totalmente distinta, para a qual não tinha formação (as vendas) mas sobre a qual aprendi milhões com os meus colegas de equipa. E agora, um regresso aos bastidores para ajudar a equipa a fazer mais e melhor, para ajudar a empresa a compreender quem são os nossos clientes. Só há um pequeno problema: são ficheiros intermináveis de Excel com centenas de milhares de linhas, são análises que me vi obrigada a aprender sozinha (obrigadinha, Google), é lidar com o peso opressor dos números.

Eu sempre quis escrever. E nunca fiz nada por isso, há quem diga e com muitíssima razão. Despertei para essa paixão tarde demais e agora é difícil uma pessoa ser paga para escrever. Isto se não quiser viver de fazer publicidade, claro, porque se for para vender produtos, há aí muito boa gente. Eu sempre sonhei escrever, não aqui, não apenas num blogue, mas um livro a sério, sem que fosse preciso pagar para o editar. E agora vejo-me a braços com ficheiros de Excel que nunca mais acabam. Pelo contrário, têm apenas tendência a multiplicarem-se. E, que remédio, contento-me em escrever na minha cabeça ou um post aqui e ali. E no fundo aprendi uma coisa muita importante sobre mim: eu gosto é de trabalhar. Invejo aquela malta que consegue viver daquilo que gosta. Mas por enquanto, só ainda plantei uma árvore e fiz três filhos. O livro fica para depois.

outubro 19, 2017

Augusto: nove meses dentro, nove meses fora

Para mim, é uma data quase tão importante com o primeiro ano de vida. O meu pequenino Augusto, o meu ratinho apressado, cumpre hoje nove meses fora da minha barriga!

Ao terceiro filho, tudo devia ser mais fácil. Dormir devia ser canja, sentar-se devia ser canja, comer devia ser canja. Eu já me devia ter acostumado às noites sem dormir, não devia ter dúvidas nem medos irracionais, devia saber sempre interpretar o seu choro - devia saber sempre o que fazer. Mas o meu Augustinho veio lembrar-me que o terceiro filho é, tantas vezes, como o primeiro (e o segundo): uma pessoa totalmente diferente, com o seu próprio temperamento e personalidade. A única coisa que os meus filhos partilham como característica é o facto de terem demorado uma eternidade a dormirem bem. E o Augusto ainda está a trabalhar nisso.

Levei-o sempre para todo o lado, já fez milhares de quilómetros de carro como um valente, já voou como os irmãos (estar longe tem, pelo menos, o benefício de um baptismo de voo bem cedo!). Nasceu antes do tempo e pequenino mas o tempo se encarregou de o fazer crescer devagarinho. Eu bem quis acabar com a amamentação mas ele não deixa e parece que gosta hoje de mamar mais que nunca. Secretamente, fico feliz por ser assim, por poder prolongar este laço, mesmo que isso me roube ainda muitas horas de sono.

Passámos oito meses juntos e foi o bebé mais fácil dos três. Na unidade de neonatologia, era o bebé que menos chorava: só não gostava quando o despíamos para mudar a fralda mas fora isso não me lembro de o ouvir a chorar. Às vezes estávamos em casa e eu esquecia-me que ele também estava ali porque não o ouvia. Ainda me olha como quem está sempre feliz por me ver uma e outra vez, com aqueles olhinhos castanhos sempre a brilhar. Já se entretém com os seus brinquedos, sentado ao pé de nós e gosta pouco de estar sentado na cadeira, a não ser que veja que vem lá comida. Quer literalmente mexer em tudo o que entra no seu campo de visão e delira a chapinhar no banho.

Tem os dois irmãos muitas vezes a fazerem palhaçadas para ele se rir. E não lhe falta muito amor: dos irmãos, dos avós e dos tios mesmo longe, da pessoas que se cruzam com ele na rua e não resistem àqueles olhinhos de azeitona. O pequeno Augusto veio lembrar-me que ser mãe é um papel sempre inacabado, que todos os filhos são diferentes e muito especiais, que eu me posso sempre superar-me. E agora, a todo o vapor em direcção ao primeiro ano! De preferência, a dormir durante as noites mas havemos de lá chegar!

outubro 11, 2017

Nick, uma história de amor tardio



Li esta semana no blogue da Marta: percebi que aprendemos certas matérias com mais antecedência do que o nosso cérebro tem capacidade para as entender. E eu diria ainda mais: ouvimos e lemos muitas coisas em alturas da nossa vida em que não estamos preparados para compreendê-las.

Comigo aconteceu com alguns artistas e com alguns livros: cheguei a eles cedo demais. Não quer dizer que agora os compreenda na sua totalidade mas o passar do tempo ajudou-me a ter menos menos do desconhecido, a aceitar melhor a diferença nos outros, a ter mais tempo para pensar e digerir tudo o que consumo, culturalmente falando. E há uns tempos cheguei, finalmente, a Nick Cave, não só através da sua música, mas também através do documentário 20,000 days on Earth. Num mundo em que cada vez mais é o plástico e o vazio de ideias/carácter/personalidade que imperam, foi quase um alívio ver um documentário sobre um homem que, apesar de normal, se move num misto de escuridão e luz insuportável. Vê-lo criar, cantar e ensaiar, vê-lo no seu ambiente natural provou-me que nem sempre os ídolos têm pés de barro e ainda há quem justifique o hype.

Ontem pude vê-lo ao vivo. E vi-o de tão perto que, por momentos, me parecia estar a sonhar. A certa altura, o Mário chama-me e diz Olha, ele vem mesmo na nossa direcção! e no meio da multidão incrédula, de impecável fato e tão branca como um fantasma, uma espécie de aparição. Os olhos pequeninos, a camisa meio aberta, as mãos sempre à procura das mãos do público, a ironia sempre pronta a envergonhar quem, como eu, queria guardar o momento em vez de apenas o apreciar. Há muita dor na maneira como canta, pode sentir-se. Há um filho que já não vive e de cuja morte foi difícil recuperar. Ouvem-se os excessos da juventude, mistura-se luxúria com religiosidade, solta-se urros do fundo do ser, sussurram-se histórias ao microfone. Um concerto de Nick Cave é todo surpresa: a maneira desconcertante como se envolve fisicamente com o público, as forças que convoca para transmitir tudo o que é seu, as palmeiras projectadas debaixo de um tornado, um miúdo em câmara lenta num areal de Brighton.

Tocou coisas antigas e intensas como Tupelo, The Mercy Seat ou Red Right Hand. Tocou coisas novas e impregnadas de dor como Anthrocene, Jesus Alone ou Jubilee Street. Levou um monte de gente para cima do palco, dançou com miúdas, emprestou microfones, caminhou sem medo entre aqueles que o idolatram. Os Bad Seeds emprestaram-lhe solenidade, conduziram os momentos de fúria e também se mantiveram em silêncio quando foi preciso.

Lembro-me de implicar com os meus amigos (e primos) Monteiro porque não entendia a sua devoção a este Australiano misterioso. Mas lá cheguei e é melhor abrir-lhe os braços tarde do que nunca ter sentido o abanão que são a sua música, as suas palavras.

outubro 08, 2017

Senhor Mário, quarenta e um anos

O senhor que alguns conhecerão como meu marido celebra hoje quarenta e um anos de vida. Escolho a palavra celebra intencionalmente porque uma vida tão rica, tão cheia de aventuras, peripécias e de amor (nas suas mais variadas formas) precisa mesmo de ser celebrada todos os anos.

Este senhor só pensa em ter mais filhos (cinco é o mínimo que aceitava, até eu lhe explicar que três é o limite. Mesmo assim, gosta de insistir) e eu percebo porquê: trata-os com tanto amor, muda fraldas com a naturalidade de quem fez isso a vida toda, resiste aos nervos que causam algumas birras, relativiza e coloca sempre tudo em perspectiva, corta-lhes fatias de queijo mesmo como eles gostam, beija-os até eles não aguentarem mais, corre atrás e carrega-os sempre que as costas lho permitem, diz não com a firmeza de quem ter a certeza do que está a fazer, gosta realmente de brincar com eles.

Por outro lado, eu vejo - embevecida -  a maneira como outras pessoas gostam dele. Talvez não seja uma pessoa fácil de entender ou até mesmo de gostar. Talvez muita gente desista de o fazer porque a sua parvoíce e sentido de humor podem ser difíceis de compreender. Mas eu juro que nunca vi ninguém a fazer amigos com tanta naturalidade, a falar com estranhos como se os conhecesse há uma vida atrás, a falar com outros miúdos naquela linguagem que só eles entendem. Ele precisa de estar rodeado de pessoas, não de muitas pessoas e também não necessariamente a toda a hora - mas creio que murcharia definitivamente se não pudesse soltar o animal social que tem em si.

Há ainda um senhor Mário profissional. Alguém que já fez de tudo nesta vida, que se fez à vida quando teve de ser, que emigrou e desemigrou antes desta nossa aventura, que viu muita miséria e acudiu a muita gente que precisava, que trabalhou por turnos e que vi o seu sonho de negócio próprio a ir por água abaixo mesmo antes de existir. Alguém que faz o que tem a fazer mas que não hesita em reclamar com o que está errado. Alguém que não pode andar pela cidade do Luxemburgo sem que seja abordado por uma mãe e seus filhos a quem ajudou nas consultas médicas ou por um grupo de adolescentes a quem acompanhou nas inscrições escolares, todos de sorriso aberto, visivelmente felizes e gratos pelo seu trabalho.

E finalmente, ele existe como meu marido. Antes disso, é sabido, já era meu amigo há vinte, trinta anos. Ele era o amigo que queria ter filhos comigo e a quem eu enxotava sempre que ele brincava com isso. Mas ele era um grande amigo, alguém que me escutava e com quem podia partilhar qualquer história, um ombro onde ainda chorei. Não existiam muitos segredos entre nós: talvez apenas histórias que não partilhámos com mais ninguém. E hoje, olho comovida para o que já construímos juntos - vinte e tal anos de amizade, quase nove de namoro, quase seis de casamento, três filhos. As aventuras que já vivemos juntos, as vezes em que eu chorava e ele fez qualquer palhaçada para me fazer rir, a tristeza que senti quando percebi que nunca mais íamos ser só nós os dois, o arroz de polvo que fui obrigada a comer uma e outra vez, os gostos musicais que sempre partilhámos, a forma desinteressada com que sempre acreditou em mim - pode acontecer de tudo mas estas coisas já ninguém me rouba.

Querido Mário, parabéns pelos teus quarenta e um anos. Cada dia que passa fica mais claro que estarei ao teu lado por muitos e longos anos, mesmo com o meu mau feitio e o teu péssimo feitio. Mas com muito, muito amor. E só com três filhos, que não precisamos de preencher todos os lugares da carrinha.

(Os anos vão passando e a possibilidade de me repetir aumenta exponencialmente mas eu gosto de fazer este exercício uma e outra vez.)

outubro 07, 2017

Estou feliz porque amanhã sou obrigada a votar!

Este ano, depois de cinco anos e meio de Luxemburgo, vamos finalmente votar nas eleições comunais, as equivalentes às nossas autárquicas. A legislação prevê que todos os estrangeiros que vivam no país há mais de cinco anos e que queiram participar (apenas nestas e nas europeias, o direito ainda nos está vedado quando falamos de legislativas) o possam fazer, bastando para isso estar inscritos nas listas eleitorais da sua comuna de residência.

Mas aqui as coisas funcionam de maneira diferente do sistema eleitoral português. Todos os cidadãos luxemburgueses são inscritos automaticamente nos cadernos eleitorais e são obrigados a votar. A lei prevê apenas duas excepções: os eleitores que vivem numa comuna diferente da onde estavam previamente registados e os eleitores de mais de setenta e cinco anos (que podem votar por correspondência). Para os cidadãos não-luxemburgueses, o caso é diferente: assim que completem cinco anos de residência no Grão-Ducado, podem inscrever-se nos cadernos eleitorais. Esta inscrição é opcional mas, se a fizerem, os cidadãos incritos passam a ser obrigados a votar. Podem, a qualquer momento, pedir para cancelar esta inscrição, o que não acontece com os cidadãos luxemburgueses.

A realidade é preocupante, especialmente do ponto de vista de um cidadão estrangeiro. Neste momento, os cidadãos não-luxemburgueses representam quase mais de cinquenta por cento da população total do país. Isto significa que, se não se inscreverem voluntariamente nos cadernos eleitorais, não podem votar e deixam as grandes decisões nas mãos de uma minoria, os cidadãos nascidos aqui. Os representantes dos partidos da comuna onde vivemos mostraram-se desiludidos com número de inscrições de eleitores estrangeiros nas listas e eu também sinto que há algum desinteresse e afastamento da política, talvez por razões meramente linguísticas. Há um grande debate sobre as línguas em que devem ser publicados os materiais de propaganda: há comunas mais francófonas, há comunas mais inclinadas para o Alemão, há comunas que não abdicam do (difícil) Lixemburguês. E existe a dificuldade real que é traduzir os programas eleitorais e conseguir que eles façam sentido e mantenham o espírito inicial (hoje mesmo recebemos um dos programas eleitorais traduzido em Português mas numa tradução e aspectos tão pobres - parecia saída do Google Translator, numa folha impressa em casa, sem a marca visível do partido).

Quando recebi a convocatória na Segunda, com a indicação da nossa mesa de voto, senti que estava a viver um momento solene e que, de certa maneira, simboliza o coroar do nosso processo de integração na sociedade luxemburguesa. Não basta ter os miúdos na escola pública, participar nas variadas manifestações culturais, conhecer a história e assimilar a cultura, contribuir para a riqueza material e humana do país: é preciso aproveitar a oportunidade, tentar compreender melhor o sistema político e exercer o dever cívico de escolher quem nos representa.

No Domingo, somos convidados a votar entre as oito da manhã e as duas da tarde na escola onde anda o Vicente. Levamos conosco a convocatória e o documento de identificação e eu levo mais qualquer coisa comigo: o orgulho em fazer a minha parte, o mesmo que sentiria se estivesse a votar no meu país. E também a esperança de que outros entendam a importância destes pequenos (grandes) gestos e queiram também participar.

outubro 06, 2017

O regresso à vida real: pegar de caras o trabalho que nunca acaba

Primeira semana de trabalho e estou feliz apenas por ter sobrevivido. Depois de dez meses em casa, completamente afastada do jargão técnico, dos colegas e do escritório, custou-me regressar. Não ajuda ter um bebé em casa que em muitas noites ainda acorda de duas em duas horas, sabe-se lá porquê. Bastava que pudesse dormir umas seis horas seguidas por noite e já não me arrastaria pelo escritório à procura do café.

Na minha cabeça, tudo o que agora fica por fazer em casa na minha ausência. Antes, podia organizar bem o tempo e podia mesmo deixar coisas para fazer amanhã, porque sabia que estaria lá, porque sabia que conseguiria apanhar o combóio no dia seguinte. Agora? Agora não há dia seguinte. Tudo o que não faço hoje só vai acumular até ao próximo dia livre. Esta semana fiquei feliz apenas de conseguir manter os miúdos alimentados, dar-lhes banho todos os dias, passar algum tempo com eles. Pouco mais fiz, a não ser tratar das refeições. A minha cabeça voa frequentemente para a roupa que se há-de acumular, na arrumação que cumpro em serviços mínimos. E voa para o silêncio dos últimos dias, com os miúdos já na creche/escola e eu a tomar o pequeno-almoço a olhar para o jardim.

Para piorar, voltei ao trabalho e mudei de funções. Não para algo radicalmente diferente mas para uma posição recém criada, onde não há ainda muitas orientações definidas, onde vou precisar de desbravar caminho. Passo de uma função integrada numa equipa para algo mais individual e não vou mentir, gosto dessa possibilidade de trabalhar sozinha. É claro que continuo a gostar das pessoas que trabalhavam antes comigo mas sabe-me bem poder (às vezes) isolar-me e fazer o que há para fazer. De resto, no capítulo das pessoas, há demasiadas caras novas para conseguir sequer decorar nomes. Uma empresa que cresceu vinte por cento em pessoal no último ano é motivo de orgulho e confiança no futuro mas também de demasiada gente que precisamos conhecer, com quem é necessário estabelecer confiança (só eu sei o tempo que isso me leva...), com quem é preciso aprender a lidar. Eu lido mal com pessoas no geral, pior ainda com as que não conheço - extra esforço nesta minha rentrée.

O primeiro dia foi tão mau que duvidei da minha capacidade de acabar a semana com a saúde mental intacta. Dormi extremamente mal, apesar de não ter pensado uma única vez no trabalho. Só que estar dez meses em casa, sem precisar de estar em frente a um computador mais de oito horas por dia, faz mossa. À hora do almoço, tomei um paracetamol em casa e decidi que ali iria almoçar sempre que puder. Assim sempre faço de conta que a licença ainda não acabou. Depois, com o passar dos dias, a coisa foi melhorando: fui tolerando melhor o computador, fui repescando informação que já tinha arrumado na memória, fui sendo apresentada à gente, fui sendo recebida de braços abertas pelos antigos colegas. O CEO passou no segundo dia e perguntou-me se estava tudo bem e se me aguentava. Se me aguentava a quê, perguntei eu, inocente. E ele explicou que quando acabo o trabalho aqui, abro a janela do outro trabalho em casa e lembrou-me que a mulher dele, ao quarto filho, percebeu que já não conseguia conciliar as duas coisas. Hei-de provar que as mulheres são de tal maneira eficazes que conseguem produzir relatórios complexos e limpar nódoas de sopa. Mas por agora, se alguém quiser passar lá em casa e passar a ferro uma peça ou duas, eu não digo que não.

setembro 29, 2017

Sete anos de Vicente

Passam hoje sete anos desde o nascimento desta força da natureza que se chama de Vicente e com quem me transformei numa Mãe. Digo força da natureza porque vive tudo com o coração na boca, sempre num equilíbrio ténue entre o tudo e o nada, sempre capaz de irradiar a maior felicidade e desfazer-se na maior tristeza. Ainda esta semana, me diziam lá nos tempos livres "Só duas coisas, mãe: lê impecavelmente mas é preciso que deixe de chorar por tudo e por nada!". Eu, porque sei a quem é que ele sai, faço o mea culpa e explico-lhe que já não é tempo de tudo ser motivo para lágrimas.

O meu Vicente, que hoje me parece mais perto de um homenzinho do que dum miúdo, nasceu há sete anos. Era um dia ainda quente, eu não conseguia ajudá-lo a nascer por causa da epidural, tinha uma vista bonita sobre a Expo e foi o único parto a que o pai pôde assistir. Ali chegava o Vicente, gordinho e rosado, cheio de vernix, assustador com as suas pequenas mãos sobre as têmporas, como se tivesse chegado e já começado a pensar. O Vicente que sempre chorou muito, que deu noitadas que me parecem hoje infinitas mas incrivelmente longe, que cresceu sempre como devia, chegava há sete anos e o meu mundo dava uma cambalhota da qual ainda hoje não recuperei.

Hoje deixei-o na escola para ajudá-lo com o bolo de aniversário e ele estava contrariado: quer ir para a escola sozinho. O menino que viveu com os os pais durante mais de quatro anos como uma ilha, sempre os três para todo o lado, tudo para ele, agora quer ser livre. Não extremamente livre, que ainda se pendura nos nossos pescoços a pedir mimo, ainda nos quer mostrar os pontapés de bicicleta que sonha fazer bem, ainda nos pinta desenhos sem ser em ocasiões especiais, ainda nos quer. Mas já começou o caminho que há-de fazer sozinho e isso comove-me, deixa-me entusiasmada mas também triste, o meu primeiro bebé há muito que deixou de o ser.

Anda há três dias com duas folhas na mala que devia ler todos os dias (até hoje, quando vão ler na sala de aula) e praticava nos tempos livres e depois comigo, em casa. E de cada vez que o ouvi a ler aquelas palavras em Alemão, com o à-vontade de alguém que nasceu aqui mas que, na verdade, só começou a aprender há duas semanas, vieram-me as lágrimas aos olhos. Por perceber do que ele é capaz, por ver como se interessa pela escola (mesmo que às vezes esteja cansado), por desejar que assim seja sempre. E quanto mais penso nisso, menos me parece que tenha alguma coisa a ver conosco: ele quer saber, aprender, fazer bem. E só isso é coisa para me fazer chorar porque é meio caminho andado.

Andava há que tempos a contar os dias para o seu aniversário, com aquele febre de quem sabe que o dia é especial. Levantámo-nos cedo e cantámos-lhe os parabéns a cinco (na verdade a dois, porque um ainda não sabe o que se passa e a outra estava a tentar perceber porque é que ele recebe presentes e ela não). O nosso menino faz sete anos hoje e tem dado muito trabalho mas aquele brilho nos olhos vale todo o trabalho do mundo!


setembro 25, 2017

O fim (e, necessariamente, também o princípio)


Estou a apreciar os meus últimos dias livres o mais possível, já que regresso ao trabalho exactamente de hoje a uma semana. Prevêm chuva para a esse dia e eu decidi absorver os últimos raios de Sol num Outono que já vai longo (aqui). Portugal ainda se despede lentamente do Verão e nós já dormimos com o edredon há que tempos, os miúdos saem com os casacos de Inverno de manhã, há abóboras por todo o lado.

Hoje dei um passeio pelo nosso bairro e entrei mesmo no cemitério. Não sei porquê mas sei que respondi a um impulso, abri e portão e deambulei entre as campas. Só se ouviam os pássaros a cantar e um ou outro ramo a quebrar no bosque e apeteceu-me chorar pelos mortos que ali jazem: famílias inteiras, crianças, homens que nunca chegaram a ter a minha idade. Em Portugal, entrei num cemitério apenas duas vezes para enterrar os meus dois avôs e por isso ainda compreendo menos porque me senti impelida a entrar.

Não me cruzei com ninguém no caminho e o casaco mais forte ficou em casa. Estava tanto Sol e só se ouviam os trabalhos de jardinagem aqui e ali. Pelas janelas da frente, um vislumbre sobre os jardins nas traseiras e sobre as cozinhas em suspenso, sem que se visse alguém em casa. Numa porta de vidro, um cão tinha encostado o focinho e parecia esperar calma mas tristemente o dono. Num parque infantil, apenas uma mãe com um carrinho de bebé, a lembrar-me que estes tempos de calmaria, de introspecção, de criação de hábitos não se voltarão a repetir.

Em breve regresso à vida real. E se por um lado me sinto mais pronta do que nunca e mesmo desejosa de recomeçar, por outro lido com a tristeza de ser a minha última licença de maternidade. Abraço estes últimos dias com força, trato das últimas arrumações, deixo-me estar em silêncio. Numa semana tudo chegará ao fim e eu quero ter a certeza que não ficou nada por fazer.

setembro 22, 2017

Socorro, tenho um filho na primeira classe!

Todos os pais passam por isto, felizmente. Os miúdos crescem, passam da creche à pré-primária e de repente, puff!, estão na primeira classe. Imagino que à primeira custa um bocadinho, à segunda já se está mais à vontade e à terceira já se faz com uma perna às costas, mas é sempre um momento tão especial para pais e filhos.

O Vicente entrou para a primeira classe este ano, poucos dias antes de fazer sete anos. Pessoalmente, tenho a mania de o comparar comigo e, como entrei para a escola ainda com cinco anos, parece-me que ele vai atrasado. Mas o sistema educativo no Luxemburgo é diferente e aqui prefere-se que os miúdos brinquem uns bons três anos (um ano de Prècoce e dois anos de Spilschoul, literalmente escola precoce e escola de brincar) antes de começarem a aprender a sério. Digo a sério porque em ambas as escolas eles aprendem sobre a vida em sociedade, sobre a sua relação com os outros e com o seu próprio corpo, são despertados para os números, as letras, as artes e os trabalhos manuais mas ainda não funcionam em disciplinas propriamente ditas nem são, naturalmente, avaliados. Antes, são seguidos pelas educadoras e há balanços a cada três meses para que os pais saibam onde os podem ajudar, quais são os pontos fortes e os pontos fracos. Para o menino Vicente, o ponto fraco foi sempre (ainda é) o controlo da suas emoções, que leva às vezes a alguns problemas de indisciplina. Nada de grave, felizmente, mas ainda assim um assunto que trabalhamos com ele já da creche porque ele vive de coração da boca e consegue ser a maior drama queen deste mundo.

A geração dele não tem nada a ver com a minha geração em termos escolares. Quando nós andávamos na escola, a idea era os nossos pais darem-nos as oportunidades e ferramentas que eles mesmos não tinham tido. Em muitas famílias, os miúdos da minha geração eram os primeiros a poder ir para a universidade ou, pelo menos, a fazê-lo com algum conforto, ainda que com muito sacrifício. Não é isso que me preocupa na escolaridade do Vicente: já vivi o suficiente para perceber que uma licenciatura ou um mestrado não significam nada por si mesmo e podem mesmo nem ajudar no mundo profissional. Vou continuar a achar que a universidade é fundamental para melhor compreender o mundo, para aprender a pensar e apreciar as artes, a política e a cultura mas não é obrigatória.

O que me custa no sistema educativo luxemburguês é uma espécie de elitismo: os alunos são muitas vezes julgados previamente com base no seu apelido, sem incluir o seu percurso escolar. Isto significa que alunos com um apelido português são automaticamente colocados no pote dos menos capazes e orientados para o ensino técnico em vez do percurso no ensino clássico. Quero dizer que não tenho absolutamente nada contra o ensino técnico e que ficarei igualmente feliz se o Vicente quiser ser canalizador, electricista, médico ou sociólogo. A única coisa que desejo é que ele tenha muito sucesso no seu percurso académico mas, acima de tudo, que ele possa ESCOLHER o que quer fazer e que não seja prejudicado simplesmente pela sua nacionalidade. É um trabalho que também nos cabe a nós, pais: acompanhá-lo, ajudá-lo e fazê-lo sentir que tudo lhe é permitido, assim se aplique, esforçe e queira.

De resto, e avaliando apenas os primeiros dias de aulas, estou bastante feliz como se organiza a sua semana escolar e com os primeiros resultados que vou vendo nos cadernos diariamente. A escolaridade aqui é feita em Alemão (o Luxemburguês surge como língua à parte e o Francês e o Inglês só aparecem mais tarde), aprendem música, fazem ginástica e natação, têm uma disciplina de vida em sociedade (que substituiu Religião e Moral) e ainda brincam muito. Se ele se conseguir manter aplicado e entusiasmado como até agora (é pouquíssimo tempo, eu sei), estamos bem. E estamos cá para empurrar nos momentos em que isso não for assim. Empurrar com força, se for preciso.