abril 09, 2018

FEM (Fiz Eu Mesma)


Não fiz nenhuma resolução de Ano Novo mas se tivesse feito seria simplesmente esta: aprender a fazer alguma coisa com as minhas próprias mãos. E, mesmo não tendo pensado nisso enquanto começava mais um ano, isso acabou por acontecer e eu comecei a aprender a tricotar.

Já tinha tido muita vontade no ano passado e até mesmo antes do Augusto nascer. Tinha comprado um kit (lãs, agulhas, instruções) para lhe tricotar um pequeno cobertor. Ia ser O cobertor do novo bebé, amarelo porque não sabíamos ainda o sexo e ele havia de se apegar ao dito cobertor e não poderia dormir sem ele. Mas entretanto aconteceu a vida e, mais do que isso, aconteceu que ele quis nascer um mês antes do tempo e eu não tive tempo de pegar nas agulhas. No Verão, ainda comprei mais material e esperava poder aprender com a minha avó mas não houve tempo para nos sentarmos com calma e para que ela me passasse esse conhecimento milenar. Voltei ao Luxemburgo desiludida comigo por não conseguir aprender sozinha e por deixar que o tempo leve sempre a melhor sobre todas as coisas que quero fazer. 

Mas no princípio deste ano descobri esta associação (de que já falei aqui) e deu-se finalmente o click. Encontrei-me com a Miriam, uma americana que tem pouco de avozinha mas que tricota muito e bem, no café da Ouni (a primeira mercearia orgânica e sem embalagens do Luxemburgo). Começámos a sessão em Francês mas depressa mudámos para o Inglês em que ambas estávamos mais confortáveis. Partilhámos um pouco das nossas vidas (eu, três filhos e o caos que se conhecer; ela, sem filhos para poder viajar e fazer todas as asneiras do mundo) enquanto ela me ensinava o ponto mais simples do tricot (o point mousse ou garter stitch, em português não sei como se chama). Explicou-me o básico com muita calma, mesmo quando eu insistia em repetir o mesmo erro uma e outra vez, mostrou-me outros pontos, garantiu-me que mais mês menos mês estaria eu a tricotar sem ver, assegurou-me que o que era preciso era calma. 

E foi mesmo assim. Fiz muitas provas, fui tricotando amostras depois de jantar, quando o cansaço não era tanto. Depois aventurei-me na primeira peça a sério: um cachecol para o Vicente. Saiu horrivelmente mal (comecei com quinze malhas, acabou com vinte e três!) mas a minha primeira peça completa existia e o meu filho podia sair à rua com ela! Depois vieram os cachecóis para a Amália, Augusto, Mário e esta semana acabei o meu, o último da saga dos cachecóis. Pude treinar o mesmo ponto, aprender com alguns erros. Percebi que ainda preciso de olhar muito para as mãos enquanto estou a tricotar para não me esquecer de malhas ou fazer malhas a mais mas de cada vez que acabei uma peça enchi-me também de orgulho. 

Nos entretantos, fui aprendendo coisas sobre a lã (a espessura, os banhos, o peso, a matéria prima), sobre as agulhas (circulares, direitas, gigantes para as camisolas, minúsculas para as meias), sobre os erros mais comuns,  sobre os diferentes usos para os diferentes pontos. Depois de compreender alguns conceitos base, abriu-se-me o mundo do tricot sem que esperasse. É que há muitos termos que não se usam em mais lado nenhum e isso fazia com que eu sentisse que nunca iria perceber nada daquilo. Não percebo tudo, não percebo muito mas já percebo qualquer coisa!

Por enquanto não sou perfeitinha e todas as peças que fiz denunciam ter saído das mãos de uma principiante. Mas o entusiasmo cresceu e muito. Eu finalmente percebi que não se pode tricotar bem à primeira, só com um par de meses de experiência. As pessoas que vejo tricotar bem fazem-no há anos e provavelmente com mais tempo para se dedicar a isso. Eu só tenho podido tricotar ao serão, quando as três pessoas pequeninas cá de casa já se deitaram ou às vezes ao fim de semana à tarde, quando estamos todos juntos a ver um filme. Conto expandir esta actividade para outros momentos do dia (sempre que esperar num consultório ou outro serviço, em viagens mais longas em que não tenha de conduzir, durante as férias) e aprender muito devagarinho antes de cruzar os braços e achar que não tenho jeito nenhum. Nas minhas buscas por tutoriais e ajuda, encontrei muita gente nova que tricota maravilhosamente, contrariando aquela ideia de que tricotar é coisa de velhas! Há tantos, tantos bons recursos online, há projectos colaborativos em que todos tricotam a mesma peça ao mesmo tempo, há bons livros também de gente que começou na internet, há sítios onde as pessoas se encontram para comer e tricotar ou simplesmente para conversar e tricotar! É mesmo incrível!

Tricotar veio ainda lembrar-me que muitas vezes não é possível aprender coisas de uma hora para a outra e que também existem actividades em que, mais do que o talento, o que conta é o empenho e, acima de tudo, a persistência. Oxalá consiga também lembrar-me que o mesmo também se aplica na vida...

março 21, 2018

Seis anos de Luxemburgo!


(esta ilustração é da Julia Bres, que tem este Instragam divertidíssimo sobre viver no Luxemburgo)

Há seis anos atrás saí de um avião e fazia muito frio. Tinha acabado de aterrar com um bebé de um ano e meio naquele que iria tornar-se o nosso país de estimação. Há seis anos atrás começou a nossa vida no Luxemburgo, este bebé tem quase oito anos e um irmão e uma irmã a fazerem-lhe companhia.

Quantos anos pensava ficar, quando aterrei? Não faço ideia mas acho que secretamente tinha a esperança de que fossem menos de cinco, talvez só um enquanto as coisas não se ajeitassem. Eis que passaram seis anos e não estou a ver o fim desta vida luxemburguesa, embora pense sempre muito no que seria voltar a ter a nossa vida portuguesa. Se tivesse de escolher uma razão para que esta nova vida valesse a pena, seria apenas uma - os nossos filhos. Se não tivessemos emigrado, provavelmente teríamos só um Vicente para contar a história, que a vida lá não dava para mais. E depois nunca ia conhecer a rainha das birras e das doçuras, nem o príncipe da tranquilidade que estava cheio de pressa em chegar.

Estes seis anos foram, obviamente, os mais intensos da minha vida: muito chorei, muitas saudades me apertaram a garganta mas, principalmente, muito aprendi e isso não tem mesmo preço. Voltei a falar Francês e a dar uns toques no Alemão; descobri uma empresa em que sempre me senti em casa, mesmo quando as coisas não davam para isso; fiz coisas para as quais nunca estudei e outras a que já estava habituada; conheci gente de todo o mundo, confirmei e desfiz estereótipos, desiludi-me e surpreendi-me muitas vezes; não fiz muitos amigos, é verdade, mas sinto que a minha integração ainda está a acontecer e esforço-me por fazer parte desta sociedade.

O dia da nossa chegada aqui desfez-se um pouco na minha memória. Lembro-me da viagem com os meus pais para o aeroporto e do tristes que estávamos todos, com dificuldades em falar. Lembro-me de tentar suster o Vicente sossegado e adormecê-lo no avião enquanto ele se debatia como um louco. Lembro-me de sair do aeroporto e o dia estar cinzento e de soltar umas lágrimas no caminho para casa. Depois disso tanto, tanto aconteceu! Mudei de emprego, mudámos de casa, pari dois filhos em hospitais diferentes e sempre sozinha, fui muito feliz, chorei muito com a vontade de regressar a Portugal, fizemos muitos planos que concretizámos e ainda mais que continuamos a adiar. Ninguém me vai devolver estes anos que passo fora do meu país, longe da minha família e dos nossos amigos. Ninguém me ajuda a recuperar os nascimentos que perdi, as festas a que não pude ir, as mortes que não pude chorar. Mas é assim mesmo a vida e eu estou grata por termos tido esta oportunidade, mesmo que nos custe pensar no que deixámos para trás.

Nem de propósito, a minha chegada ao Luxemburgo coincidiu com a chegada da Primavera, com tudo de bonito que essa analogia pode trazer. E hoje está mesmo um dia de Primavera à Luxemburgo: gelado mas com um sol radiante, para me lembrar que não, não podemos ter tudo ao mesmo tempo. Resta agasalharmo-nos bem e fazer o melhor deste dia tão luminoso. É como na vida, também.

março 15, 2018

É uma casa cheia!


Talvez a coisa que mais ouvi desde que temos três filhos seja a frase "É mesmo uma casa cheia!". Parece que a opinião geral de ter uma casa cheia é sempre muito positiva mas eu acho que é porque estas pessoas não têm que intervir a cada cinco segundos, ou para evitar que uma irmã estrafegue o mais pequeno, ou para evitar que o mais velho roube as coisas à irmã do meio, ou para evitar que a irmã do meio dê conta dos outros dois. É divertido, é, mas é extenuante na mesma medida e há uns cinco anos que a única coisa que me apetece fazer depois de jantar e metê-los na cama é - justamente - enfiar-me na cama também.

Cada família é diferente, eu sei, mas eu tendo sempre a comparar-nos com as famílias com crianças sossegadinhas, que não armam birras por absolutamente TUDO, que respondem com calma e atenção às nossas tentativas de argumentar e chamá-los à razão. É mais forte do que eu, mesmo que eu o combata todos os dias. É inevitável pensar muitas vezes "Mas o que é que eu estou a fazer mal?". Penso-o várias vezes ao dia, quando estou com os miúdos e não consigo dois minutos de sossego. Mas na verdade eu sei qual é a maior causa dos nossos problemas: com o Vicente, ele era só um. Tinha-nos aos dois concentrados nele a cem por cento, havia tempo para actividades e trabalhos manuais e mesmo assim ele fazia aquela birra ocasional. Fast forward para os dias de hoje: os filhos ultrapassam-nos numericamente, não há atenção que chegue para pessoas de sete, três e um ano, há uma rapariga que tem o feitio mais exasperante que já vi na minha vida, há um bebé que está literalmente a aprender a fazer tudo, há um irmão mais velho que, de vez em quando, se ressente e quase pede para voltar a ser bebé. Colo há sempre para os três, cabeça para parentalidade positiva é que está mais escassa.

Com três filhos, há que repensar o espaço que necessitamos para eles. Não só para dormir ou brincar mas também para guardar todos os desenhos, cartões, colagens, recortes, fotografias e demais trabalhos manuais que vão fazendo ao longo dos anos. Com um filho, ainda se arranjava um espacinho para expor as suas obras de arte. Com dois, a coisa ficou realmente mais difícil. Quando o terceiro começar a artes manuais, o melhor mesmo é mudarmos de casa para alguma que dê para manter um pequeno museu!

Mas há mesmo coisas muito boas quando se tem três filhos. Quando eles se controlam e chegam mesmo a brincar os três - o que aconteceu para aí uma vez, para ser honesta - é delicioso de se ver. Quando encontram uma brincadeira divertida e se riem a bandeiras despregadas, é maravilhoso de se ouvir. Quando se preocupam uns com os outros, quando parece que não sabem viver sem os irmãos, o coração acelera. Quando tomam banho juntos (e não estão ocupados a esvaziar a banheira), é incrível ver o nosso ADN a chapinhar todo junto num sítio tão apertadinho. Quando estão todos a dormir (podia brincar e dizer que é a melhor parte do dia...) e eu ouço as suas respirações tranquilas, sinto-me com toda a sorte do mundo. De vez em quando, no meio das queixinhas, dos gritos, das rasteiras e empurrões, das birras inexplicáveis, dos sonos a que às vezes todos parecem querer resistir, sinto que estamos a fazer um bom trabalho. Vejo-os a rir, saudáveis, a formar a sua personalidade, a progredir na sua educação, a desenvolver a empatia e a sua relação com os outros e, durante alguns minutos, tudo parece estar no seu lugar. Até que um grito noutra divisão me desperta do sonho e vou a correr separar mais uma disputa pela coisa mais banal e desinteressante que temos em casa. Casa cheia sim, monotonia é que nunca mais!

março 01, 2018

Três anos do doce furacão Amália

Amália celebrou o seu terceiro aniversário na Segunda que passou. Como seria de esperar, houve muito choro e muita birra mas também aquela doçura de menina e aquela insistência chata de querer tudo em cor de rosa.

Às vezes penso (mesmo a sério) que ela veio ao mundo com o objectivo de me educar a mim e, em última instância, de me atazanar tanto o juízo que começo a ver tudo vermelho. Passámos estes últimos dias com os meus pais que, mais uma vez, puderam comprovar que ela chora por tudo e por nada: não quer acordar, não quer ficar na cama, não quer um vestido, não quer calças, não quer leite, não quer sopa, não quer ver bonecos, não quer ver estes bonecos, não quer lavar os dentes e, mesmo para acabar o dia, não quer dormir.

É a filha do meio e é mulher, ainda por cima, dizem-me por aí. Eu compreendo esta coisa do filho do meio ser meio esquecido: o mais velho já se desenrasca sozinho; o mais novo ainda precisa de nós para tudo. O filho do meio precisa e não precisa, tudo ao mesmo tempo. Mas a necessidade de atenção desta pequena Amália é tal que uma pessoa fica fora de si. Várias vezes por dia. Ora passa o dia a cuspir, ora bate em todos os colegas da creche, ora aperta o pescoço do bebé com os seus abraços descuidados, ora arranca das mãos do irmão mais velho tudo o que ele consegue apanhar. Foge quando queremos mudar-lhe a fralda, exige cuecas para fazer chichi nas mesmas segundos a seguir, salta na cama quando os dois irmãos já adormeceram.

Talvez a minha luta seja porque ela é mulher e eu lido mal com os constantes desafios. Respiro fundo muitas vezes e tento dar aos seus comportamentos a importância que realmente merecem mas depois de minutos a fio de choro descontrolado, de gritos e inflexibilidade, a coisa dá-se. Como outros miúdos, de manhã não quer ficar na creche e à tarde não quer ir para casa. Às vezes não quero acordar nem regressar a casa para não me deixar abater por aquilo que muitos chamam personalidade forte e eu chamo apenas teimosia pura.

Mas Amália é uma doçura também, com aquela ingenuidade de uma menina de três anos que me pergunta se o passador serve para caçar borboletas. Não pode ver-me a chorar que chora ela também por solidariedade. Não pode passar sem o seu 'Centinho (quer saber onde está, quando regressa da escola, se também vai dormir) para o bem e para o mal. Ri-se de tudo o que ele se ri, imita-o em tudo e segue-o pela casa fora. No outro dia, fez o seu primeiro puzzle pela primeira vez e ficou super orgulhosa. Desenha muito melhor do que o irmão com a mesma idade e faz tudo com muito mais cuidado do que o irmão: com três anos, quase pode tomar duche sozinha.

Não herdou a feminilidade da sua mãe, infelizmente. Mas chega a casa e só quer vestidos de princesa, tudo deve ser cor de rosa, quer o laço e os sapatos da Minnie. Gosta de fios e pulseiras, quer cremes como gente grande e anda a chatear-me para furar as orelhas. É um balanço muito curioso entre todas as coisas de meninas e dois irmãos que não estão obviamente para aí virados. Amália tanto joga à bola como está pela casa varrendo o chão, divide a atenção pela Princesa Sofia e pela Patrulha Pata - no fim, guarda o melhor de dois mundos.

Eu sei que me queixo muito dela. Eu examino as minhas reacções e reconheço que talvez dê demasiada importância às coisas más em detrimento de todas as coisas boas que a nossa filha faz, traz e é. Muitas vezes o cansaço não ajuda nada. Muitas vezes há um irmão que precisa de ajuda nos trabalhos de casa e outro que precisa de colo para acalmar os dentes que aí estão. E ela está no meio, a precisar do mesmo colo, a precisar que cantemos com ela ou que nos sentemos a ver um livro com calma. E eu sei que os outros também precisam de mim mas o meu compromisso é também com ela, para que ela nunca se sinta posta de parte e perca, finalmente, este síndrome de filho do meio.

fevereiro 19, 2018

(ainda há aqui gente)






Ainda aqui estou. Muitas vezes sem vontade de escrever/dizer nada porque sinto que não tenho nada de interessante para dizer/mostrar. Muitas vezes sem qualquer tempo para rabiscar meia dúzia de palavras, dividida entre o trabalho cada vez mais exigente e os filhos a precisarem um olho a toda a hora. Tem feito muito frio por aqui, mais do que no ano passado (se a minha memória não me falha).

Já nevou bastantes vezes mas nunca assistimos assim a um daqueles nevões de parar tudo. Neva, a neve transforma-se em gelo pouco tempo depois e o Sol depois encarrega-se do resto. Acordamos, levantamos as persianas e está tudo branco, sempre sem aviso e sem se fazer avisar. Quando está a nevar, parece que o silêncio se torna ainda mais dominador. Os miúdos têm brincado na neve nas respectivas escolas e nós saímos só um dia para ver a paisagem fora da cidade e levá-los a enfiar os pés em alguns centímetros de neve. Sair de casa nestes dias é um exercício contra a minha natureza, condicionada por anos a viver nos Invernos frios e molhados de casa e por aquele reflexo imediato: está mau tempo, o melhor é nem sair. E como eu sei que estar ao livre ia ajudar a passar o tempo (estas três pequenas feras precisam de muita actividade para não se concentrarem a implicar uns com os outros constantemente). 

Foi Carnaval e este ano os mais pequenos tiveram direito a dois disfarces diferentes, um novo e um herdado do mais velho. Além dos disfarces, o pequeno Augusto começou agora a vestir a roupa que era do Vicente e isso ajuda muito. A Amália teve direito a muita roupa nova (quase toda, diria) por ser menina. Espero que as coisas não tenham passado muito de moda depois de sete anos mas a verdade é um irmão mais velho ajuda muito. E então sapatos!, nem vos conto quantos têm herdado os miúdos da altura do Vicente. Ter apenas um filho resultava naquele luxo de nos podermos concentrar apenas nele, comprarmos tudo apenas a pensar nele. Agora chegou a altura desse luxo compensar! 

No trabalho, as coisas continuam a mudar e neste momento não me sobra nenhum momento para nada que não sejam os projectos que tenho em mão. Antes, encontrava momentos de acalmia de vez em quando, podia respirar fundo antes de me atirar ao próximo cliente. Agora não dá: há imensos relatórios para entregar, ha outras responsabilidades totalmente novas para mim, há um poder de decisão que ainda não tinha experimentado. E aconteceu-me a melhor coisa possível: deixei de trabalhar em equipa porque a minha equipa sou eu! Sim, eu sei que nas entrevistas de trabalho toda a gente diz que adora trabalhar em equipa mas será isso mesmo verdade? Eu cá sei é que é muito mais excitante depender apenas de mim para alcançar os objectivos, não ter que fazer esforços suplementares para compensar o resto. E atenção que eu adorava a minha equipa anterior, mesmo. Mas esta posição fora de uma equipa trouxe-me mais entusiasmo e mais realização. Se calhar descobri uma das minhas vocações: organizar a informação que temos à disposição. À semelhança do que sinto em casa, também agora sinto um prazer em organizar e preparar a informação de forma a ajudar a empresa a entender como correm as coisas nos diferentes mercados. Gráficos e tabelas tem sido comigo e acabo sempre ogulhosa dos relatórios que construo. É parvo, eu sei, mas faz com que acordar de manhã seja menos um sacrifício e mais um novo prazer. 

Entretanto, no pouco tempo livre que me sobra, comecei a tricotar. Primeiro, tive um aula com alguém já experiente (este projecto Mamie et Moi é espectacular e recomedável para quem, como eu vive no Luxemburgo e quer aprender a tricotar) e depois comecei a praticar depois do jantar, quando os miúdos já estão deitados. Ainda estou muito no início da coisa mas já tenho planos para fazer três cachecóis para os miúdos com o ponto mais fácil. Depois, a ideia é voltar a ter uma aula, aprender mais pontos até conseguir aventurar-me em verdadeiras peças de roupa. Sonho com o dia em que consigo fazer roupa para os miúdos, não precisam ser muitas peças, até pode ser só uma peça daquelas essenciais para cada estação mas feitas por mim. Tricotar sabe-me bem porque é uma actividade tão repetitiva que me acalma, ao mesmo tempo que me entusiasmo a ver as peças a crescerem. Portanto, os meus bocadinhos livres são divididos entre o tricot e a leitura, mas a verdade é que estou muito atrasada para atingir o meu objectivo de leitura deste ano (24 livros.. ufff.. estou bem longe). 

E agora resta-me esperar que esta semana passe depressa: os meus pais chegam Sábado para passar uns dias connosco e matar saudades dos miúdos. Nós, por sua vez, vamos poder respirar um pouco, quem sabe mesmo jantar fora a dois, aliviados com um pouco de ajuda. Isso e os planos para as férias deste ano têm ajudado a manter a cabeça à tona deste Inverno que tem sido escuro, cinzento e muito frio. Daqui já me vejo deitada ao Sol...

janeiro 19, 2018

Augusto, um ano (cheio) de vida

Há um ano atrás, perto da uma e tal da manhã, senti qualquer coisa que não devia estar a acontecer mas estava: as águas tinham rebentado. Ainda faltavam cinco semanas para a data prevista para o nascimento daquele bebé, não era possível que ele estivesse a querer ver o Mundo já. Num pânico controlado, liguei para a unidade de ginecologia e perguntei o que devia fazer naquele caso. Venha com calma para o hospital, disseram-me do outro lado da linha, mas venha. A mala ainda estava meio por fazer, enfiei meia dúzia de coisas de que precisava lá dentro. Acordámos os miúdos, que dormiam tranquilamente, enfiámos-lhes os casacos e gorros e botas e lá fomos os quatro para o hospital.

Fazia muito frio, nessa noite, como aliás nos dias que se seguiram. O M. ligou, sem querer, as luzes de nevoeiro porque não estávamos com o nosso carro, tínhamos um emprestado da oficina. Quando estamos mesmo a entrar na auto-estrada, um carro da polícia a fazer-nos sinais e eu já a pensar naquelas situações nos filmes em que a senhora grávida já vai aos gritos dentro do carro. Eu não gritava e eles queriam apenas alertar para o facto de não haver nevoeiro... Luzes apagadas, voámos até ao hospital.

Fui vista pela parteira de serviço, que ligou à minha médica para a avisar. Segundo ela, podiam passar semanas antes do trabalho de parto começar, por isso era melhor que eu me dispusesse a aguardar calmamente... mas no hospital. Levaram-me para um quarto às escuras, onde já dormia uma grávida de risco, tentando evitar o seu parto há já algumas semanas. Fazia muito frio porque estava uma janela aberta. Eu estava doente, devia ter uma laringite ou qualquer coisa do género e tremia debaixo dos lençóis. As contracções tinham começado e eu, moderna que sou, descarreguei à pressa uma aplicação para perceber a sua frequência e intensidade. Pelas minhas contas, o parto não devia estar longe. Pelas contas da enfermeira da manhã, não havia sinais de trabalho de parto no monitor fetal. Mas ela via como me contorcia com dor e, para não arriscar um nascimento ali no quarto, mandou-me para o bloco de partos. Passaram duas horas, um animal dum anestesista e muitas palavras de encorajamento de parteiras e médica - eu tinha mais um bebé, sozinha, sem o abraço do pai. Eu gritava O que é, o que é? e só depois de alguns segundos me disseram que era um rapaz e eu soube que tinha nascido o Augusto.

O resto já se sabe. Nascido com 35 semanas e 3 dias, o Augusto precisou de ir para a Neonatologia, embora tudo indicasse que era saudável. Passaram-nos brevemente pelos meus braços para que o beijasse antes de entrar na incubadora e eu senti-me mais sozinha que nunca. Parir um bebé e depois não ter bebé nenhum ao meu lado abriu um fosso no meu peito que só foi alargando com todas as horas que passei sem o ver no primeiro dia. Acho que o curei quando pude passar duas horas inteiras pele com pele, no escuro da Neonatologia. Deitados os dois, só a estarmos, a aprendermos a ser mãe e filho, o meu instinto de protecção a gritar milhões.

Fast forward para hoje. O Augusto comemora o seu primeiro ano, que, como sempre, passou incrivelmente depressa! Dos nossos três filhos, é talvez o mais bem disposto e bonacheirão. Como os outros, precisa de muito colo, muitos beijinhos, muitos abraços. Dá-se bem com toda a gente menos com o seu pediatra, apesar da sua gentileza e empatia. Como os irmãos, faz um ano e só dormiu duas vezes a noite toda. Se não pararem de lhe dar de comer, ele não pára de comer. Mexe em tudo o que está ao alcance dele (só na semanas passada conseguiu partir duas garrafas de vinho, mea culpa...), sabe o que é dançar, bater palmas e dizer xau. É o nosso último bebé e por isso custa mais sentir que o tempo avança sem piedade. Vou aproveitar muito que ainda o posso esborrachar com beijos!

janeiro 03, 2018

Olha, já estamos em 2018!

Quase um mês. Quase um mês sem ter tempo ou (muitas vezes) paciência para escrever uma linha que fosse. Quase trinta dias a ter rascunhos de posts na cabeça, a imaginar inícios e títulos, a pensar se fazia sentido escrever sobre isto ou aquilo e depois nunca me sentar para o fazer. É duro ser mãe de três, é verdade, mas o que é verdadeiramente duro é dormir (muito mal). Com a rotina (banhos, pijama, jantar, acordar, roupa, escola/creche) dou-me eu bem. O que não suporto é a falta de sono. E eis que, quase chegados ao primeiro ano completo do senhor Augusto, ainda não se dorme a noite toda nesta casa. Não vou descrever outra vez o suplício, embora agora sinta que a exaustão aumentou mesmo exponencialmente.

O mês de Dezembro não vai deixar saudades. Primeiro foram os rapazes com gastroenterite, coisa leve mas ainda assim de estar vigilante. Depois foi a pequena que com tanta, tanta tosse acabou por ficar internada na clínica pediátrica durante quatro dias para poder receber o oxigénio que tanto lhe faltava. Depois fui eu a cair com a gastro, enquanto tomava conta dela no hospital. Ela teve finalmente alta, eu melhorei e eis que as -ites voltam a atacar: eu com um ataque monstruoso de sinusite, ela com duas otites mesmo acabada de sair do hospital. Frequentei mais as urgências da clínica pediátrica e alguns médicos do que alguma vez imaginei possível. Não foi nada de grave, é claro, mas a sucessão de doenças e o facto de eu ter adoecido ao mesmo tempo que eles acabou com as minhas forças. Cheguei mesmo a chorar de desespero quando os deixei na creche um dia por alguns minutos: ela cheia de dor de ouvidos, o pequeno com alguma tosse mas eu a precisar que um médico me visse e me medicasse. Quando pensarem que a vida de emigrante é muito linda, pensem também como seria se não tivessem ninguém para vos ajudar - nenhuma família, poucos amigos, ninguém para ficar com os miúdos enquanto vocês mesmo tratam da vossa saúde. Foi a pior semana dos últimos tempos e rezo para que esta combinação de doenças nunca mais volte a acontecer.

Ainda conseguimos ir a Portugal. Foi a primeira vez que fomos de carro nesta altura do ano e, meteorologicamente falando, não foi horrível. Para lá, o primeiro dia (atravessar França de uma ponta à outra) é extremamente difícil para mim mas mais leves para os miúdos; o segundo dia passa num instante para mim e numa eternidade para eles, que estão realmente fartos de estarem presos no carro. No regresso, atravessamos Espanha sem grandes queixas e chegamos a Bordéus com alguma tranquilidade; o segundo dia é o pior, pela extensão do caminho e o humor dos três pestinhas. Nada que não se faça e felizmente as más memórias apagam-se depressa, é engraçada esta nossa capacidade. Um pouco com a memória do parto: agora estás a maldizer a hora em que resolveste engravidar, nos minutos a seguir só já pensas naquele pequenino ser que ajudaste a vir ao mundo e nada mais importa. Chegados lá, a melhor prenda que Natal que pudemos ter foi tempo para respirar, oferta da nossa família, claro. Ao ficarem com os miúdos sempre que possível, ajudaram-nos a esquecer a semana interminável que tínhamos acabado de passar (esta não foi tão rápida de esquecer, infelizmente). Viemos carregados de presentes para os miúdos, de Sol e temperaturas invernais agradáveis, a respirar melhor mas também com aquele bichinho de poder voltar à nossa casa. A um quilómetro da fronteira com o Luxemburgo, um nevão a parar o trânsito porque estas pessoas nunca conduziram na neve e não sabem como se comportar...

E finalmente terminou 2017. Eu cá não dei por nada porque, costume desde que a Amália nasceu, estava a dormir. Quer dizer, acabei por saber quando tinha chegado a meia-noite graças aos inúmeros foguetes e outros espectáculos pirotécnicos que se faziam ouvir um pouco por todo o lado. Mas o sono era tanto que não fiz questão de estar acordada e, já que não tínhamos planos com mais ninguém, jantámos todos juntos (depois de um dia dos demónios fechados em casa), eu e o marido bebemos uma garrafinha de Esporão e depois acabou 2017 para mim. Já perdi a fé nas resoluções de Ano Novo mas há uma coisa que gostava mesmo que mudasse neste novo ano: gostava de ter mais paciência para os miúdos. Gostava de os entender melhor e, sobretudo, de vê-los como as outras pessoas os vêem: curiosos, livres, divertidos, inteligentes. Passam-se noites em que penso no que é que estou a fazer mal e sei reconhecer que muitas vezes estamos demasiado cansados para prestar toda a atenção necessária a cada um deles. Eu sinto que estamos a tentar fazer o melhor mas também que a coisa estoura muitas vezes por dá cá aquela palha. Tenho esperança de poder dormir mais este ano e, descansando um pouco mais, espero poder não me irritar por tudo e por nada. Não prometo mas gostava de chegar aqui no final do ano e riscar o meu únido desejo para este ano. Acrescento apenas mais um, de que me lembrei agora mesmo: gostava de aprender a tricotar mas as minhas tentativas até agora dizem-me que talvez tenha que ficar para uma próxima encarnação!

De resto, desejo a todos que ainda lêem este (muitas vezes moribundo) blog um Feliz Ano Novo! Espero que vos traga aprendizagem, tempo, paz de espírito e muito amor. E, já agora, algum dinheiro, que uma viagem ou dois ou três livros não se compram sozinhos!

dezembro 06, 2017

“A single person is missing for you, and the whole world is empty.”

Há dois dias acabei de ler o livro mais triste de que me lembro. Chama-se The Year of Magical Thinking (O Ano do Pensamento Mágico em Português), escrito pela jornalista e escritora Joan Didion. Quando peguei no livro, não sabia muito bem ao que ia. Já o tinha visto recomendado por algumas pessoas com quem partilho os gostos literários mas não estava preparada para o enorme murro no estômago que foram estas duzentas e poucas páginas de não-ficção.

O livro centra-se no ano que se seguiu à morte do marido de Didion, John Dunne, e em que a sua filha estava também internada em coma após uma pneumonia e um choque séptico. É o retrato de uma mulher sozinha, apenas acompanhada pelas muitas memórias de quarenta anos de vida em comum, dividida entre fazer o luto pelo marido e acompanhar a filha no hospital. É um relato brutal da dor mas principalmente das maneiras como ela tenta enganar-se a si mesma com o tal pensamento mágico: se ela fizesse muita força, se ela, por exemplo, guardasse os sapatos do marido, talvez ele não estivesse realmente morto e ainda pudesse voltar. Didion tenta evitar todos os sítios onde criaram memórias os dois (ou os três) mas descobre que até as mais pequenas coisas têm o poder de despertar memórias sobre as conversas, as discussões, as promessas, os planos que tinham feito, quase sempre trabalhando lado a lado. E depois há o facto da filha estar em coma aquando da morte do pai (acabou, tragicamemente, por morrer também em 2005) e de isso ter, de certa maneira, adiado o luto, tão necessário, quanto inevitável.

Não sou muito boa a lidar com a morte. Ninguém é, dirão vocês e com razão. Muitas vezes penso nela - não na minha mas na dos que me são próximos - e choro antes de dormir. Noutras vezes, não consigo compreender como pode a vida ser só isso, umas dezenas de anos sobre a Terra, uma passagem breve e totalmente desprovida de sentido. Há noites em que percebo que o Mundo como o conhecia está a desmoronar-se lentamente e que vamos ver mais e mais pessoas de quem gostamos ou com quem tivemos algum tipo de relação a ir também, sucumbindo à implacável passagem do tempo. Noutras ocasiões, penso na tristeza de (um dia) deixar de ver os meus filhos e imagino a tristeza que isso também lhes trará e isso dói. Sinceramente, nada faz sentido porque não acredito na vida depois da morte. Então vir ao Mundo, crescer, aprender, trabalhar, amar - é tudo um desperdício de matéria.

Mas devo dizer a verdade: na maior parte do tempo não penso na Morte. Na maior parte do tempo, é como se fôssemos todos imortais e não me consigo aceitar a ideia de que o nosso destino é todo o mesmo. Na maior parte do tempo, não penso em agências funerárias, em atestados e certidões, em termos médicos incompreensíveis, em coroas de flores e velórios, no vazio que são aqueles primeiros dias após. Na maior parte do tempo, tento convencer-me que tudo aceitarei, que nada me magoará, que serei capaz de tudo sem chorar. Não vou ser capaz, eu sei. Todos morremos, não precisam lembrar-me. É  a conclusão esperada desde sempre, claro que sim. A vida continua, com um bocado de sorte. Mas nada me preenche esta sensação de vazio, de escuridão e de inutilidade quando penso nos porquês.

(às vezes há períodos assim, cheios de Morte. Para mim, foram as noites a ler o livro. Depois morreram o João Ricardo, o Pedro Rolo Duarte, o Belmiro de Azevedo e o Zé Pedro. Há pessoas a morrerem em ataques terroristas no Egipto e no Iemen. Há colegas de trabalho que morrem ou a quem morre alguém. E no meio disto tudo, num rasgo de puro egoísmo, eu penso: quando é que me vai tocar a mim?)

novembro 13, 2017

#metoo

Este é um post que queria não escrever mas não posso ficar indiferente àquilo que se tem passado nos últimos tempos. Refiro-me, claro, às acusações de assédio sexual, violência ou puro comportamento misógino de muitas figuras públicas que têm vindo a público depois de muitas mulheres ganharem a coragem de (finalmente) falar.

Para mim, a questão fundamental é que este tipo de comportamento não se verifica apenas em posições de poder: está, literalmente, por todo o lado e às vezes vem mesmo de pessoas que estimamos e que julgamos imunes. Não me choca mais saber que o Harvey Weinstein, por exemplo, usou o seu poder para abusar de mulheres à procura de um lugar na indústria cinematográfica do que me choca saber que as mulheres estão sujeitas a este tipo de abuso todos os dias, na rua, nos seus locais de trabalho, nos sítios onde se vão divertir. Não me interessam apenas os nomes sonantes que se vêem agora envolvidos nestes escândalos, mas também os abusadores anónimos que provalmente nunca serão denunciados e, pior ainda, nunca compreenderão o efeito que têm sobre uma mulher.

Eu sofri na pele este comportamento misógino durante tantos anos da minha vida. Talvez até ganhar o poder sobre quem me pode magoar e deixar de prestar atenção a este tipo de abusos. Desde ser gozada por ter uma voz grave e, logo, pouco feminina; não encaixar nos padrões de beleza das miúdas de 12 ou 13 anos e ser gozada por isso; quase ser agredida por um rapaz numa festa (cheguei mesmo a ter a minha cabeça debaixo do braço dele e fui salva de um murro por um grande amigo, que infelizmente ganhou um olho negro) só porque não estava interessada nele e queria apenas dançar; terminar uma relação cheia de abusos e traições e nos dias seguintes ter o voicemail cheio de mensagens de ódio gravadas pelo ex-namorado, melhores amigos dele (incluindo uma mulher), confirmando a necessidade da minha decisão; apanhar um táxi para voltar a casa à noite e ter um taxista a perguntar-me repetidamente E se eu agora a levasse para um sítio escuro, sem ninguém ver?, como se isso fosse uma brincadeira; clientes que me perguntaram se não havia um homem para os atender porque não se sentiam confortáveis com o meu nível de experiência - muitos mais exemplos teria para dar, como creio que outras mulheres, anónimas e muitas vezes impotentes, devem também ter.

Em parte, sinto que cheguei a um ponto da minha vida em que este tipo de agressões (quase todas apenas verbais, felizmente) deixou de ter importância para mim e consigo simplesmente continuar a minha vida. A minha auto-estima deixou de se construir pela validação que buscava nos outros e passou a ser totalmente dependente apenas de mim. Aceito os meus defeitos e vivo especialmente bem com os defeitos físicos porque não são eles que me definem. Mas a verdade é que elas condicionaram a mulher que eu era e ainda continuam a ferir muitas mulheres por aí. Este tipo de comportamento não é exclusivo de um país, uma faixa etária, nível de escolaridade - está disseminado e, mesmo que muitas vezes abafado pelo silêncio das vítimas, bem vivo. E o único defeito desta movimentação toda, destes relatos (muitas vezes já antigos) é que vem tarde.

Mas ponhamos de parte tudo aquilo que se passou conosco e façamos a pergunta que se impõe de seguida: é este o Mundo que queremos deixar para os nossos filhos? Eu espero que a minha filha nunca tenha que passar pelo mesmo, que nunca veja a sua auto-estima destruída por um homem abusador, que saiba sempre de onde vem realmente o seu valor. E gostava que os meus filhos nunca fossem responsáveis por abusos deste tipo (de nenhum tipo, claro), que respeitem todos os seres humanos e lhes reconheçam o valor e apreciem as suas diferenças. É um legado muito difícil de atingir mas é o único pelo qual vale a pena lutar: fazer deste Mundo um sítio mais justo, com as mesmas oportunidades para todos, onde as diferenças se celebram e não servem os propósitos da discriminação, onde a simples biologia não constitui nenhuma fraqueza. É muito provável que eu não viva para ver estas mudanças mas que possamos, pelo menos, ajudar a desbravar caminho.

novembro 06, 2017

Trinta e oito viagens à volta do Sol

Depois de trinta e sete anos, continuo sem perceber muitas pessoas (os americanos, por exemplo), começo a perceber outras (a minha pequena filha, por exemplo, que se tem revelado numa pequena tirana em potência) mas conheço-me melhor. Não me importo de falar em público, empenho-me mil por cento em tudo o que faço, só fico contente quando sou a melhor.

2015
Cheguei aos trinta e seis com dois filhos e num estado de exaustão que me preocupa. Cheguei aqui e há dias em que eles são aquilo que me define: se os amei tudo o que pude, se lhes dei banho a correr, se consegui não gritar. Cheguei aqui e às vezes parece que eles são tudo o que interessa, mesmo quando me lembro que eu sou a minha própria pessoa, com desejos, falhas, neuras e vontades.

2013
Às vezes sinto que vivi muita, muita coisa e que aprendi outras tantas. Outras parece que cheguei agora ao Mundo e ainda estou no início da aprendizagem. No geral, o balanço entre as duas não me deixa arrependida de nada.

2012
E prometo tentar viver com menos ansiedade, aceitar os ensinamentos que os momentos mais vulgares nos trazem tantas vezes, ser menos colérica e impulsiva, duvidar menos do meu desempenho maternal, gastar menos e não me esquecer que o nosso filho é apenas uma criança.

2011
Fazer anos quando já se tem um filho é estranho: é como se me revisse neste pequeno gorducho que grita pela sala fora.

2010
O ano foi definitivamente de renovação: começou com uma imensa tristeza a oito de Janeiro, seguiu com uma notícia espantosa dia oito de Fevereiro, abanou-me no dia trinta e um de Julho e mudou a minha vida para sempre a vinte e nove de Setembro.

2009
Ainda sou uma chorona, na verdade. Choro por tudo e por nada, enervo-me a sério, comovo-me demasiado. Portanto, comprometi muitas horas de sono aos meus pais e esfrangalhei-lhes os nervos de vez em quando.

2008
São vinte e nove anos de alguma desorientação, certezas abaladas, vontade de arriscar e muitas descobertas. Que seja um ano para nunca mais esquecer.

[a escrever aqui há treze anos, hoje olho para trás e espreito o que escrevi sobre o meu aniversário desde que este blogue é gente. Descobri que nem sempre escrevi qualquer coisa, revi algumas fotografias minhas em bebé, viajei no tempo. E dou mais um passo gigante em direcção a esses monstros assustadores chamados quarenta (arrepio).]

outubro 27, 2017

VLOOKUPs e outras funções que tais

A minha saga profissional continua. Parece que quanto mais tempo trabalho, mais me vou afastando do que sonhava fazer.

Na minha inocência de criança, queria ser professora. De Inglês, de preferência, que era a minha grande paixão. Não admira: o Inglês está por todo o lado - filmes, televisão, música, livros, tudo coisas que eu sempre consumi avidamente. Não me lembro de querer ser outra coisa. No liceu, juntou-se-lhe o Alemão porque era assim o grupo de ensino, Inglês e Alemão, e porque eu tinha queda para as línguas. Mas quando começou a faculdade, tudo mudou. Durante um tempo ainda achei que ia fazer as cadeiras pedagógicas e passar pelo estágio mas dei um trambolhão metafórico que me fez perder o Norte e demorei nove anos a fazer o curso. Em algum momento, que não consigo isolar ou definir, deixei de querer ser professora e passei a sonhar com alguma coisa na área da cultura. A escrever, se pudesse ser.

Mas depois começaram as contas, as responsabilidades. Os meus pais levaram-me ao colo durante nove anos (mesmo depois daquele trambolhão), o que nunca lhes poderei agradecer de maneira satisfatória, mas tinha chegado a hora de me fazer à vida. Muitos dos meus colegas seguiram a via do ensino mas creio que muito poucos acabaram professores no sistema de ensino público. Outros seguiram tradução e safaram-se melhor. Muitos de nós terminámos a fazer simplesmente pela vida, um emprego que (se calhar) era para ser temporário e acabou a condicionar os anos que se seguiram.

Trabalhei em cinco ou seis sítios diferentes, na maior parte dos casos em posições ligadas ao apoio ao cliente, quer directo ou indirecto. Sempre que tive tempo, comecei pela posição mais básica e fui trepando pela cadeia hierárquica a pulso, mesmo quando não sabia criar um relatório ou fazer uma apresentação em público. Cheguei à empresa em que trabalho agora e fui apanhadas em sucessivas cambalhotas: primeiro, um conhecimento técnico que não tinha e fui obrigada a obter à força; depois, passar para uma área totalmente distinta, para a qual não tinha formação (as vendas) mas sobre a qual aprendi milhões com os meus colegas de equipa. E agora, um regresso aos bastidores para ajudar a equipa a fazer mais e melhor, para ajudar a empresa a compreender quem são os nossos clientes. Só há um pequeno problema: são ficheiros intermináveis de Excel com centenas de milhares de linhas, são análises que me vi obrigada a aprender sozinha (obrigadinha, Google), é lidar com o peso opressor dos números.

Eu sempre quis escrever. E nunca fiz nada por isso, há quem diga e com muitíssima razão. Despertei para essa paixão tarde demais e agora é difícil uma pessoa ser paga para escrever. Isto se não quiser viver de fazer publicidade, claro, porque se for para vender produtos, há aí muito boa gente. Eu sempre sonhei escrever, não aqui, não apenas num blogue, mas um livro a sério, sem que fosse preciso pagar para o editar. E agora vejo-me a braços com ficheiros de Excel que nunca mais acabam. Pelo contrário, têm apenas tendência a multiplicarem-se. E, que remédio, contento-me em escrever na minha cabeça ou um post aqui e ali. E no fundo aprendi uma coisa muita importante sobre mim: eu gosto é de trabalhar. Invejo aquela malta que consegue viver daquilo que gosta. Mas por enquanto, só ainda plantei uma árvore e fiz três filhos. O livro fica para depois.

outubro 19, 2017

Augusto: nove meses dentro, nove meses fora

Para mim, é uma data quase tão importante com o primeiro ano de vida. O meu pequenino Augusto, o meu ratinho apressado, cumpre hoje nove meses fora da minha barriga!

Ao terceiro filho, tudo devia ser mais fácil. Dormir devia ser canja, sentar-se devia ser canja, comer devia ser canja. Eu já me devia ter acostumado às noites sem dormir, não devia ter dúvidas nem medos irracionais, devia saber sempre interpretar o seu choro - devia saber sempre o que fazer. Mas o meu Augustinho veio lembrar-me que o terceiro filho é, tantas vezes, como o primeiro (e o segundo): uma pessoa totalmente diferente, com o seu próprio temperamento e personalidade. A única coisa que os meus filhos partilham como característica é o facto de terem demorado uma eternidade a dormirem bem. E o Augusto ainda está a trabalhar nisso.

Levei-o sempre para todo o lado, já fez milhares de quilómetros de carro como um valente, já voou como os irmãos (estar longe tem, pelo menos, o benefício de um baptismo de voo bem cedo!). Nasceu antes do tempo e pequenino mas o tempo se encarregou de o fazer crescer devagarinho. Eu bem quis acabar com a amamentação mas ele não deixa e parece que gosta hoje de mamar mais que nunca. Secretamente, fico feliz por ser assim, por poder prolongar este laço, mesmo que isso me roube ainda muitas horas de sono.

Passámos oito meses juntos e foi o bebé mais fácil dos três. Na unidade de neonatologia, era o bebé que menos chorava: só não gostava quando o despíamos para mudar a fralda mas fora isso não me lembro de o ouvir a chorar. Às vezes estávamos em casa e eu esquecia-me que ele também estava ali porque não o ouvia. Ainda me olha como quem está sempre feliz por me ver uma e outra vez, com aqueles olhinhos castanhos sempre a brilhar. Já se entretém com os seus brinquedos, sentado ao pé de nós e gosta pouco de estar sentado na cadeira, a não ser que veja que vem lá comida. Quer literalmente mexer em tudo o que entra no seu campo de visão e delira a chapinhar no banho.

Tem os dois irmãos muitas vezes a fazerem palhaçadas para ele se rir. E não lhe falta muito amor: dos irmãos, dos avós e dos tios mesmo longe, da pessoas que se cruzam com ele na rua e não resistem àqueles olhinhos de azeitona. O pequeno Augusto veio lembrar-me que ser mãe é um papel sempre inacabado, que todos os filhos são diferentes e muito especiais, que eu me posso sempre superar-me. E agora, a todo o vapor em direcção ao primeiro ano! De preferência, a dormir durante as noites mas havemos de lá chegar!

outubro 11, 2017

Nick, uma história de amor tardio



Li esta semana no blogue da Marta: percebi que aprendemos certas matérias com mais antecedência do que o nosso cérebro tem capacidade para as entender. E eu diria ainda mais: ouvimos e lemos muitas coisas em alturas da nossa vida em que não estamos preparados para compreendê-las.

Comigo aconteceu com alguns artistas e com alguns livros: cheguei a eles cedo demais. Não quer dizer que agora os compreenda na sua totalidade mas o passar do tempo ajudou-me a ter menos menos do desconhecido, a aceitar melhor a diferença nos outros, a ter mais tempo para pensar e digerir tudo o que consumo, culturalmente falando. E há uns tempos cheguei, finalmente, a Nick Cave, não só através da sua música, mas também através do documentário 20,000 days on Earth. Num mundo em que cada vez mais é o plástico e o vazio de ideias/carácter/personalidade que imperam, foi quase um alívio ver um documentário sobre um homem que, apesar de normal, se move num misto de escuridão e luz insuportável. Vê-lo criar, cantar e ensaiar, vê-lo no seu ambiente natural provou-me que nem sempre os ídolos têm pés de barro e ainda há quem justifique o hype.

Ontem pude vê-lo ao vivo. E vi-o de tão perto que, por momentos, me parecia estar a sonhar. A certa altura, o Mário chama-me e diz Olha, ele vem mesmo na nossa direcção! e no meio da multidão incrédula, de impecável fato e tão branca como um fantasma, uma espécie de aparição. Os olhos pequeninos, a camisa meio aberta, as mãos sempre à procura das mãos do público, a ironia sempre pronta a envergonhar quem, como eu, queria guardar o momento em vez de apenas o apreciar. Há muita dor na maneira como canta, pode sentir-se. Há um filho que já não vive e de cuja morte foi difícil recuperar. Ouvem-se os excessos da juventude, mistura-se luxúria com religiosidade, solta-se urros do fundo do ser, sussurram-se histórias ao microfone. Um concerto de Nick Cave é todo surpresa: a maneira desconcertante como se envolve fisicamente com o público, as forças que convoca para transmitir tudo o que é seu, as palmeiras projectadas debaixo de um tornado, um miúdo em câmara lenta num areal de Brighton.

Tocou coisas antigas e intensas como Tupelo, The Mercy Seat ou Red Right Hand. Tocou coisas novas e impregnadas de dor como Anthrocene, Jesus Alone ou Jubilee Street. Levou um monte de gente para cima do palco, dançou com miúdas, emprestou microfones, caminhou sem medo entre aqueles que o idolatram. Os Bad Seeds emprestaram-lhe solenidade, conduziram os momentos de fúria e também se mantiveram em silêncio quando foi preciso.

Lembro-me de implicar com os meus amigos (e primos) Monteiro porque não entendia a sua devoção a este Australiano misterioso. Mas lá cheguei e é melhor abrir-lhe os braços tarde do que nunca ter sentido o abanão que são a sua música, as suas palavras.

outubro 08, 2017

Senhor Mário, quarenta e um anos

O senhor que alguns conhecerão como meu marido celebra hoje quarenta e um anos de vida. Escolho a palavra celebra intencionalmente porque uma vida tão rica, tão cheia de aventuras, peripécias e de amor (nas suas mais variadas formas) precisa mesmo de ser celebrada todos os anos.

Este senhor só pensa em ter mais filhos (cinco é o mínimo que aceitava, até eu lhe explicar que três é o limite. Mesmo assim, gosta de insistir) e eu percebo porquê: trata-os com tanto amor, muda fraldas com a naturalidade de quem fez isso a vida toda, resiste aos nervos que causam algumas birras, relativiza e coloca sempre tudo em perspectiva, corta-lhes fatias de queijo mesmo como eles gostam, beija-os até eles não aguentarem mais, corre atrás e carrega-os sempre que as costas lho permitem, diz não com a firmeza de quem ter a certeza do que está a fazer, gosta realmente de brincar com eles.

Por outro lado, eu vejo - embevecida -  a maneira como outras pessoas gostam dele. Talvez não seja uma pessoa fácil de entender ou até mesmo de gostar. Talvez muita gente desista de o fazer porque a sua parvoíce e sentido de humor podem ser difíceis de compreender. Mas eu juro que nunca vi ninguém a fazer amigos com tanta naturalidade, a falar com estranhos como se os conhecesse há uma vida atrás, a falar com outros miúdos naquela linguagem que só eles entendem. Ele precisa de estar rodeado de pessoas, não de muitas pessoas e também não necessariamente a toda a hora - mas creio que murcharia definitivamente se não pudesse soltar o animal social que tem em si.

Há ainda um senhor Mário profissional. Alguém que já fez de tudo nesta vida, que se fez à vida quando teve de ser, que emigrou e desemigrou antes desta nossa aventura, que viu muita miséria e acudiu a muita gente que precisava, que trabalhou por turnos e que vi o seu sonho de negócio próprio a ir por água abaixo mesmo antes de existir. Alguém que faz o que tem a fazer mas que não hesita em reclamar com o que está errado. Alguém que não pode andar pela cidade do Luxemburgo sem que seja abordado por uma mãe e seus filhos a quem ajudou nas consultas médicas ou por um grupo de adolescentes a quem acompanhou nas inscrições escolares, todos de sorriso aberto, visivelmente felizes e gratos pelo seu trabalho.

E finalmente, ele existe como meu marido. Antes disso, é sabido, já era meu amigo há vinte, trinta anos. Ele era o amigo que queria ter filhos comigo e a quem eu enxotava sempre que ele brincava com isso. Mas ele era um grande amigo, alguém que me escutava e com quem podia partilhar qualquer história, um ombro onde ainda chorei. Não existiam muitos segredos entre nós: talvez apenas histórias que não partilhámos com mais ninguém. E hoje, olho comovida para o que já construímos juntos - vinte e tal anos de amizade, quase nove de namoro, quase seis de casamento, três filhos. As aventuras que já vivemos juntos, as vezes em que eu chorava e ele fez qualquer palhaçada para me fazer rir, a tristeza que senti quando percebi que nunca mais íamos ser só nós os dois, o arroz de polvo que fui obrigada a comer uma e outra vez, os gostos musicais que sempre partilhámos, a forma desinteressada com que sempre acreditou em mim - pode acontecer de tudo mas estas coisas já ninguém me rouba.

Querido Mário, parabéns pelos teus quarenta e um anos. Cada dia que passa fica mais claro que estarei ao teu lado por muitos e longos anos, mesmo com o meu mau feitio e o teu péssimo feitio. Mas com muito, muito amor. E só com três filhos, que não precisamos de preencher todos os lugares da carrinha.

(Os anos vão passando e a possibilidade de me repetir aumenta exponencialmente mas eu gosto de fazer este exercício uma e outra vez.)